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120 batimentos por minuto – Façamos barulho e não silêncio

120 batimentos por minuto é um filme para aqueles que acreditam na pluralidade, abertos ao debate e que acreditam que a arte pode ser usada como120 batimentos uma arma de conscientização.

É um filme necessário, que dá um nó na garganta em vários momentos e que nos joga uma realidade na cara, pois “parece” (?) que os jovens de hoje não ligam tanto para o assunto, talvez por não terem sentido o terror que devastou muitas pessoas nos anos 90. Uma obra ativista que documenta um momento do passado que não deve ser esquecido e que sirva como alerta que essa doença que devastou há tempos atrás, ainda segue até hoje fazendo mais vítimas. Um retrato de uma época que os remédios causavam sofríveis efeitos colaterais, as drogas DDI e AZT não funcionavam e a morte era iminente.

Já diria uma frase no filme “Realidade é uma questão, conhecimento é a arma”. Se este filme pudesse chegar em todas pessoas, ser debatido em escolas e ser usado como uma poderosa “arma” contra a doença e a desinformação sobre ela, o filme de Robin Campillo conseguira cumprir sua missão.

Aqui o cinema mostra como a arte é uma poderosa arma. Robin nos trará um filme militante de luta, de que o amor é para todos, quebrando o tabu de sexo apenas entre sexos diferentes e nos trazendo sem chocar, que o sexo é para todos. Um grito pelo respeito as pluralidades. Lembro de ter visto em poucos filmes o debate sobre a AIDS e ter presenciados em duas obras (“Filadélfia” (1993) e” Clube de compras Dallas” (2013)), mas com certeza “120 minutos” atravessa-me com mais força e deixando-me angustiada ao sair da sessão, pois parece que aquela bexiga com sangue falso que o grupo ACT UP jogam nas pessoas, foi jogada em mim. Como se o filme me gritasse: A AIDS EXISTE!

É urgente que acabe já o preconceito contra homossexuais que estão sempre associados à AIDS ou que ela é gerada por eles. Infelizmente já ouvi isso. Fico até indignada de que muitas pessoas desistam de ver o filme, pois definirão como um filme de homossexual e que heterossexual é mais difícil de contrair o vírus. O tema é um tabu até hoje.

É um filme importante de ser discutido, de debatermos com filhos e de repensar até nossa vida sexual e o quanto nos levamos em aventuras, como se uma vez sem o uso da camisinha “não dá nada”. É um alerta que hoje em 2018, ao invés de estarmos evoluindo, estamos regredindo.

Estreando dia 4 de janeiro no Brasil, “120 batimentos por minuto” é o pré-selecionado pela França para concorrer ao Oscar este ano e em 2017 saiu do Festival de Cannes com o Grande Prêmio do júri e Prêmio da Crítica

O filme é dirigido pelo diretor francês Robin Campillo (“Eles voltaram (2004) e “Meninos do Oriente” (2013), que já integrou como ativista na ACT UP em prol da guerra contra a AIDS. Então estamos diante de um filme que passa pelas próprias memórias do diretor. Talvez Robin nos apresente os sonhos e mazelas deste grupo e quantas perdas de amigos ele teve em sua batalha.

O grupo ativista ACT UP atuava na França nos anos 90 intensificando seus esforços para que a sociedade reconhecesse a importância da prevenção e tratamento da AIDS, num momento que o país não priorizava a questão e o vírus se alastrava. O ACT UP era um grupo de pessoas que debatiam democraticamente, onde todos tinham voz e o exemplo de como é essencial fazer barulho contra o preconceito.

Temos demonstrada diante das telas feito de forma quase documental e com uma naturalidade absurda do elenco as ações feitas pela ACT UP não violentas em defesa da prevenção e tratamento da AIDS, a luta pela democratização do acesso aos coquetéis e a mobilização que este grupo fazia nas ruas para mexer com a opinião da sociedade. Um longa-metragem que mostra a batalha deste grupo e o romance entre dois militantes que integravam esta luta (interpretados por Nahuel Pérez Biscayart (Sean Dalmazo) e Arnaud Valois (Nathan).

Este grupo era formado exclusivamente por militantes gays, mas que fique bem claro que esta não é uma doença exclusiva e estigmatizada até hoje (e veja bem que retrocesso e falta de informação) que ela é apenas atinge gays, lésbicas, prostitutas e pessoas que se injetam. É uma doença que atinge a todos e deve ser debatida por todos.

Nas telas não veremos o pessimismo, mas sim saímos fortalecidos com a esperança que a união entre pessoas sobre uma mesma causa pode incomodar e mudar as coisas. O silêncio causa a morte e o ACT UP existe para romper este silêncio e prolongar a vida.

Temos 3 narrativas no filme. Um lado documental onde o público observa e analisa o quadro apresentado (nos fazendo sentir como parte integrante das reuniões do grupo), o caráter de manifesto que o filme propõe e a história de amor entre Nathan e Sean, um casal soro discordantes (um que possuí o vírus e o outro não). Por falar em manifesto é interessante a forma que o ACT UP se manifesta pacificamente, sendo enérgicos e intensos, deixando sua marca e tentando sempre um diálogo com as autoridades.

Claro que num grupo é difícil todos terem uma mesma opinião e não divergirem, mas sentimos nos debates uma luta só e por um bem comum. Todos são unidos, tanto nas reuniões como nos momentos que celebram nas festas a sua vontade de viver. Cada dia é uma luta pela sobrevivência.

O elenco é incrível e muito natural diante das câmeras e em alguns personagens fica difícil entender se são realmente interpretados por atores, pois suas atuações são tão verdadeiras e palpáveis, nos dando impressão que o diretor deixou seu elenco livre na atuação e essa liberdade se vê também na própria dança que a câmera faz, como se fosse uma mosca desnorteada.

Sean que é interpretado brilhantemente por Nahuel (que eu desconhecia como ator) tem uma entrega muito bonita, ativa e forte e ver seu personagem tão vivo sendo tomado pela doença é devastador diante dos olhos. Mas é belo ver um personagem tão tenaz (como era definido pelos amigos do grupo), que enfrentava tudo com os olhos cheios de vontade e que dedicou suas últimas forças para estar na luta com esse grupo. É comovente como a morte aqui neste filme pode ser visto como um ato político e o quanto a última cena fica marcada na memória.

A fotografia é um ponto forte e gosto como a câmera capta a poeira que se alastra numa balada, o quanto corpos deitados no chão em silêncio pode ser forte, o quanto mães são uma força diante da perda, o quanto o amor é bonito de ser visto nos olhos das pessoas independente da opção sexual e o quanto numa cena que os dois personagens centrais tomam um banho de mar demonstra que sempre estamos lutando para pular as ondas e seguirmos de pé.

Esse filme é uma obra sobre aqueles que não se calam e são estes que eu estalaria os dedos muitas vezes. Tenho certeza que muitos vão estalar os dedos como eu.

Sobre Fernanda Petit

Atriz há 16 anos, apaixonada por cinema. Filha do gerente do ex-cinema Marrocos.

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