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A construção de Heisenberg em “Breaking Bad”


Um dos maiores legados de Breaking Bad é ter deixado um vasto material para a análise e estudo da linguagem audiovisual. Das incontáveis referências as construções inteligentes de personagens e tramas, cada detalhe da série justifica por que ela conquistou tanta gente. O objetivo desta análise é mostrar a construção do personagem Walter White/Heisenberg, protagonista e vilão da série, do início ao desfecho através desses elementos de linguagem. Logo, é um texto indicado a quem já terminou as cinco temporadas, pois a seguir já começam os spoilers.

O primeiro ponto importante para essa construção é a composição de cores do seu figurino (assim como dos demais personagens principais). Verde é a cor predominante de Walter White na primeira temporada. Não vou entrar muito em detalhes no simbolismo das cores (há artigos ótimos já publicados), apenas cito para que possamos ver nas imagens que acompanham este texto a mudança do figurino quando Walt é Walt e quando age como Heisenberg.

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O segundo, e mais importante em termos narrativos, é o comportamento de Heisenberg com reflexos das características marcantes de personagens que morrem direta ou indiretamente a partir de ações do protagonista. E essa construção é impecável.

Os primeiros a morrer são os dois distribuidores locais. Com a morte dos dois, White cria seu pseudônimo Heisenberg para tomar o lugar de Crazy 8 sem absorver demais características do antigo distribuidor. Essa é uma grande mudança no arco de White que o levará a conhecer o violento Tuco (que adora socar o que tiver na frente) e ao momento que diz pela primeira vez o nome que o acompanhará no mundo do crime, já vestido de preto, figurino predominante deste personagem:

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No segundo encontro com Tuco, White/Heisenberg já dividem cena, oscilando entre a insegurança do professor e a segurança do novo traficante (possivelmente absorvida de Crazy 8), como podemos notar nas cores usadas por ele, o verde predominante de White e o chapéu/óculos de Heisenberg, a seguir:

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E já no terceiro encontro, a ausência das cores de Walter indica o controle de Heisenberg, seguro do que está fazendo. E não é à toa que isso acontece no encerramento da primeira temporada…

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… cujo plano final mostra os dois sócios pequenos, frágeis, em um universo destruído com destaques vermelhos para simbolizar o perigo que vão enfrentar adiante:

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A segunda temporada continua a mostrar a evolução de Heisenberg ainda dividindo espaço com o professor. Ao final do primeiro episódio, Walt é sequestrado por Tuco e o enquadramento de câmera mostra bem essa alternância White/Heisenberg. Usando as duas cores predominantes dos personagens, Heisenberg entra em sua casa como um invasor…

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… e então vemos Walt, vulnerável, mas com uma arma nas mãos:

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Com muito cuidado, a arma nunca é filmada com as cores verdes, sempre junto do preto como vemos no quadro abaixo…

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… abaixo…

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… e abaixo:

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Este é um exemplo de como a posição de câmera contribui para mostrar que vemos dois personagens diferentes no começo da série, mas que nessa sequência se misturam no mesmo ambiente familiar sob ameaça de Tuco.

Quando Walt volta ao banheiro para falar com Skyler, Heisenberg não está mais presente na tela:

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Essa lógica de cores na dupla personalidade de Walt se repete também ao longo da segunda temporada inteira. Ele se estabelece como traficante, aperfeiçoa-se como produtor da droga e passa a se distanciar da família, às vezes por dias, o que o obriga a mentir sobre seu paradeiro.

O figurino acompanha essa evolução do personagem e quando voltam ao médico para saber o resultado do tratamento do câncer, Walt está muito mais perto das cores usadas quando assume a persona de Heinsenberg (em um plano belíssimo que mostra todos alegres, menos ele, afinal, já sabe onde se enfiou):

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Depois de receber a boa notícia, Walt vai ao banheiro e notamos uma sensível mudança de comportamento que nos remete ao impulso de Tuco, como disse no começo do texto. Após socar, como Tuco faria, uma caixa de alumínio, vemos um plano de Walt desfigurado, sem pleno controle de si e com cores escuras: Heisenberg.

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A partir deste episódio é que o protagonista passa a testar os limites das pessoas próximas, como ao dar bebidas alcoólicas a Walter Jr na frente de Hank, e desconhecidas, como no mercado quando encontra dois produtores amadores de metanfetamina. Então, mergulha no crime, conhece Gus Fring e segue o caminho cada vez mais longe de sua família – começando por perder o nascimento da filha Holly.

Heisenberg se estabelece como vilão definitivamente quando percebemos que ele mesmo não tem mais limites para atingir os objetivos. No quadro abaixo temos a cena do que podemos considerar seu primeiro assassinato. No quadro, cortinas vermelhas, o amarelo predominante de Jesse, sua namorada morta e Heisenberg desfocado e no seu figurino escuro habitual:

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E depois disso, Walt e Jesse passam a usar cores escuras e tons de cinza. Mesmo em casa, Walt aparece sem suas roupas coloridas até o final da temporada, onde aparece com uma blusa rosa, mesma cor do urso de pelúcia caolho que surge no S02E01:

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Figurino que segue nos primeiros momentos da temporada seguinte:

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É na terceira temporada que Walt começa a enfrentar as piores consequências, desde ter parentes de Tuco buscando vingança até o rompimento do casamento com Skyler.

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E com muita sutileza, no episódio seguinte, vemos um plano de Walt se assumindo um novo figurino, as cores de Skyler até este ponto da série:

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A genialidade na construção de Heisenberg não se limita às cores e figurino, mas se estende aos cenários de forma mais marcante em alguns momentos.

Em especial, quando conhece pela primeira vez o laboratório que Gus Fring mantém longe da cidade. Neste momento da série, Walt está afastado de Jesse e de Skyler (consequentemente da família), que são as pessoas mais importantes e, até agora, por quem ele arriscou tudo o que tinha.

Walt, usando uma camisa verde com listras azuis, passa por um ambiente com elementos também azuis, vermelhos e amarelos (cores de Skyler e Jesse):

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No primeiro dia de trabalho, Walter White assume cores ainda mais fortes que remetem à Skyler (há o cuidado de mostrar o momento em que ele desembala a camisa nova) que gradativamente ficam mais escuros a medida que a história se torna mais sombria até o final da temporada:

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Ao chegar ao laboratório, as cores predominantes são as de Jesse e Skyler mais uma vez (assim como o uniforme amarelo que vestirá em seguida):

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Voltando à formação de Heisenberg a partir de características de outros antagonistas mortos, Walt matará um traficante que usava crianças para distribuir as drogas (e a criança fora morta após intervenção de Gus)…

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… e depois fará o mesmo com o garoto Brock ao final da temporada seguinte quando o envenena com uma flor para concluir um plano.

Já completamente envolvido pelo crime, Heisenberg volta definitivamente…

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… começa a destruição de Jesse Pinkman…

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… e entra na quarta temporada com o figurino em tons de vermelho  ressaltando  o perigo que representa:

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Heisenberg, a esse ponto da série, já tem a frieza dos gêmeos mortos que buscavam a vingança de Tuco e com isso passa a planejar a morte de Gus Fring com ajuda de Don Salamanca, um momento memorável da série pela repercussão que dá entre todos os personagens e também por formar uma rima visual com o urso rosa da segunda temporada:

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Mais uma vez o cenário mostra o equilíbrio que Heisenberg conquista ao eliminar seu principal antagonista até o momento. O plano seguinte ao da morte de Gus, vemos o contraste perfeito daquele plano inicial do ferro velho, com os mesmo elementos, mas com a ordem construída no universo de Walt, que só será quebrada quando Hank encontrar o livro de W.W. na quinta temporada:

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Vamos ver de novo como era antes?

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E assim Walt fecha a quarta temporada, depois de muito tempo com as cores do início, como se agora pudesse voltar a ser quem fora um dia:

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O figurino de Walt na quinta temporada resgata todas as cores que ele usou na série, pois entra como um personagem completo sob esse ponto de vista.

Seguindo a lógica que proponho nesse texto, seria natural que Walter White/Heisenberg absorvesse características de Gustavo Fring. E vemos Walt em seus novos negócios assumir a postura do antigo dono do Pollos Hermanos. E não é só na maneira de conduzir os negócios de perto, Walt chega a cogitar com Skyler a expansão do lava-rápido, claramente com o intuito de instituir a mesma cadeira que Fring tinha com o restaurante.

Após eliminar Mike covardemente, vemos Walt agir de forma semelhante a Fring até mesmo no atendimento a clientes:

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Deste ponto em diante veremos a destruição total da família de Walt, a morte de Hank e o desfecho onde podemos notar em Heisenberg características: o cuidado de Mike ao planejar como deixar dinheiro à família, a ousadia de Gustavo ao eliminar vários inimigos de uma vez…

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… e, o que pra mim representa a beleza da complexidade do protagonista, a determinação de Hank ao desmantelar de vez o crime organizado – o que concluiria o trabalho que o cunhado fizera no DEA.

O último plano plongé é espetacular, com a câmera se afastando de um personagem que vai deixar muita saudade. Mais do que isso: um plano onde todos os elementos que falamos neste texto são colocados sutilmente. Vemos o azul de Skyler, o amarelo de Jesse, o laboratório em sombras, a camisa verde do professor Walt e a única cor vermelha é do seu próprio sangue, mas o cenário dessa vez não apresenta mais nenhum perigo ao personagem:

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E a trilha do final? Uma homenagem a sua metanfetamina azul:

Baby Blue (Badfinger)

Guess I got what I deserved
Kept you waiting there too long, my love
All that time without a word
Didn’t know you’d think that I’d forget or I’d regret
The special love I had for you, my baby blue
All the days became so long
Did you really think, I’d do you wrong?
Dixie, when I let you go
Thought you’d realize that I would know
I would show the special love I have for you, my baby blue
What can I do, what can I say
Except I want you by my side
How can I show you, show me the way
Don’t you know the times I’ve tried?
Guess that’s all I have to say
Except the feeling just grows stronger every day
Just one thing before I go
Take good care, baby, let me know, let it grow
The special love you have for me, my Dixie, dear.

* O texto é de autoria de José Rodrigo Baldin e pode ser encontrado em seu blog pessoal – http://jrodbaldin.wordpress.com/2014/04/10/a-construcao-de-heisenberg-em-breaking-bad/ *

Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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