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Analisando a Season Finale de Game of Thrones: The Children


You will never walk again, Bran, but you will SPOILER

(Three-eyed Crow)

Já começou o período insuportável do ano que vai do décimo ao primeiro episódio de Game of Thrones. E como fã dos livros e da adaptação, fico com a sensação de ter visto o melhor encerramento até agora, com um saldo muito positivo. Não consigo, porém, ignorar alguns problemas que vou abordar mais pro final do texto e que deixaram a temporada com uma cara… hmm… estranha. O mais importante que devemos identificar neste episódio (e nos três anteriores também, já que temos que incluir Sansa e Theon nessa soma) é o fechamento dos arcos dramáticos dos personagens principais. Vou detalhar cada um ao longo do texto, só ressalto que a intenção de D&D aqui é mostrar a virada em todos eles. A história segue aberta, o espectador deve sentir que faltou contar muita coisa, no entanto se olhar de perto perceberá que Tyrion encerra seu arco como um assassino, assim como Arya que parece saborear cada momento da morte de um sujeito de sua lista, mesmo que ele tenha se tornado seu protetor sem esperar pelo ouro que a menina significou um dia. O mesmo com Dany, Jon, Jaime, Cersei e Bran. E no sentido de construir esses personagens, a série encerrou com chave de ouro. Vejamos como isso acontece.

O nome do episódio The Children me trazia duas promessas: ou seria um episódio focado no arco dramático de todos os filhos de Catelyn e Ned Stark espalhados por todo lado ou desenvolveria ainda mais a mitologia da série, dessa vem em torno dos já citados em episódios anteriores, Filhos da Floresta – criaturas muito antigas de Westeros. E não fez exatamente nem uma coisa nem outra. Fez algo ainda mais intenso e mostrou o amadurecimento de D&D desde que decidiram voar com uma certa independência da obra de GRRM. Seguindo a tradição de apresentar rimas visuais e temáticas entre os arcos dos personagens principais, o episódio final sugeriu o que citei, mas abordou com muito mais ênfase outras crianças vítimas de tudo o que a série criou até aqui. Assim, é possível afirmar que em “children” incluímos sim os Filhos da Floresta na personificação daquela menininha que leva Bran até o Corvo de Três Olhos e dois filhos de Cat e Ned, mas também a criança carbonizada Drogon, os dois dragões de Daenerys aprisionados pela mãe e, na minha visão, Jaime, Cersei e Tyrion. Por quê? É com muito cuidado e sensibilidade os arcos dramáticos dessas “crianças” são construídos e a partir de agora tomam um rumo contrário às nossas expectativas.

Com a morte de Tywin, Robb e Catelyn, temos uma enorme mudança na relação de poder dessas duas famílias. No começo da série, lá na primeira temporada, somos apresentados a uma família Stark, digamos, tradicional e com quem a maioria do público facilmente se identificaria, como se identificou. O contraste disso é a família Lannister e não há como negar que a cena de Jaime e Cersei na torre – que termina com a queda de Bran – é a grande responsável pelo ódio que todos carregaram pelos leões (exceto por Tyrion, claro) ao longo das temporadas, mas que aos poucos passaram a admirar Jaime quando finalmente seus motivos são revelados, assim como os de Cersei – e se você ainda acha que Cersei é uma vilã que merece todo tipo de castigo pelo que fez com Ned, acredite, você tem um sério problema de misoginia. Fato é que Jaime e Cersei são apresentados depois de sofrerem grandes perdas que os moldaram daquele jeito, como a morte da mãe, casamentos forçados, constantes agressões de Robert Baratheon (aos dois, diga-se) e o peso de uma mentira que poderia custar a vida de ambos – como mostra a belíssima cena final da Rainha nessa temporada ao tentar se livrar desse fardo para viver com Jaime e o único filho que lhe resta próximo. Do outro lado, vemos Arya fria, vingativa e sem mostrar nenhuma piedade a Sandor Clegane que implora pela morte, assim como Sansa, capaz de mentir sobre a morte da tia para continuar aliada a Petyr. Somando a atitude das duas ao que pode se tornar Bran agora que encontrou o Corvo de Três Olhos e à agressividade de Rickon exposta desde o último episódio da primeira temporada, podemos embasar que vemos a construção de quatro vilões ainda piores do que qualquer outro que tenhamos visto na série. E aqui entra a genialidade de GRRM muito bem aproveitada por D&D: quando esses novos vilões voltarem para buscar vingança, não é Tywin que encontrarão, mas Tommem, o jovem rei que nada fizera para merecer qualquer vingança, e seus pais, que se não podemos aceitar uma redenção desses personagens, ao menos entendemos melhor os motivos e que são vítimas de uma disputa de poder assim como Sansa, Arya, Bran e Rickon.

Trazendo o espectador ao campo de batalha além da muralha exatamente no momento em que acabou o nono episódio, Alex Graves enfatiza a urgência e cria a tensão através do movimento de câmera, balançando-a enquanto vemos Jon caminhar ao encontro de Mance. De forma inteligente, utiliza planos de cima da muralha para mostrar o grande espaço por onde avançará o exército de Stannis (e se você perdeu alguma coisa e se perguntou de onde saiu tudo aquilo, Banco de Ferro de Braavos é a resposta). Em termos narrativos, mais uma vez vemos um bom diálogo entre Jon e Mance enfatizando o respeito entre inimigos que se repetirá entre Mance e Stannis e entre Jon e Tormund. O desfecho de Jon Snow nessa temporada respeitou o equilíbrio de gelo e fogo presente na narrativa quando Graves alternou closes do bastardo e de Melisandre, ambos atrás do fogo, o que pra mim sugeriu uma plano subjetivo de como a feiticeira enxerga quando olha para as chamas de R’hllor, o que significa dizer que naquele momento ela viu em Jon o que pensava ver em Stannis e de forma muito sutil fecha o arco de Jon sugerindo que ele é o prometido. Mas e o sangue real? Pois é. Isso reforça que seu pai era Rhaegar Targaryen.

Em Meereen, Graves contorna a câmera lentamente em torno de Daenerys para enfatizar o quanto a rainha passou a se deliciar com seus títulos proferidos por Misandei, o que a afasta cada vez mais a jovem rainha daquela libertadora da temporada passada. E como ali é o núcleo onde se discute política de forma mais explícita, não faltou no roteiro o questionamento sobre a liberdade e como gerações anteriores reagem a novos regimes. Nesse caso, a comovente cena de um escravo pedindo autorização para vender a sua própria força de trabalho a seu antigo dono mostra as dificuldades que Daenerys deve enfrentar para manter o equilíbrio em seu reino, principalmente depois de perder boa parte do seu poder ao aprisionar dois dragões e de ter Drogon fora do seu controle. O grande mérito nesse núcleo está na maneira que os dragões foram mostrados. Enganados pela mãe para que pudessem ser presos, Rhaegon e Viserion demonstraram uma reação quase humana ao perceber que estavam na masmorra. E que linda ironia no arco de Daenerys, aquela que quebrou as correntes, ser obrigada a acorrentar seus filhos. Rico em rimas temáticas, Game of Thrones não deixa de sugerir com isso (ainda mais do jeito que a montagem finalizou o episódio) como Cersei e Jaime seguem presos em Porto Real para a proteção do filho, enquanto Tyrion, assim como Drogon, seguirá livre de Westeros por um tempo.

Com o melhor desfecho entre os personagens principais, o anão do gigante Peter Dinklage mais uma vez entrega os grandes momentos. Que Dinklage é o melhor ator do elenco eu duvido que alguém possa discordar. E não é uma tarefa fácil, já que a maioria de suas cenas foram divididas com grandes talentos intérpretes de Jaime, Cersei, Oberyn e principalmente o espetacular Charles Dance que entregou um Tywin Lannister impecável, capaz de calcular cada sílaba para manipular até mesmo seus filhos. Toda construção da derradeira cena do patriarca merece menção, desde a fotografia mostrando constantemente o símbolo da casa que começava a ruir, até a lenta morte de Tywin. E sim, lenta. Ainda que tenha sido Tyrion a disparar as flechas, Cersei já tivera um diálogo tenso com o pai ameaçando destruir a casa contando a verdade sobre seu relacionamento com Jaime. Incluir neste momento as primeiras notas de Rains of Castamere foi um brilho a parte. Momentos antes de Tyrion disparar, o pai já percebera que Jaime libertara o anão e é possível que tenha pensado em uma emboscada dos dois. Note como o anão coloca pequenas “condições” como se dissesse “pai, não quero te matar, não diga isso de novo”. Nunca saberemos se a intenção era a de matá-lo. Na minha interpretação, Tyrion, a princípio desarmado, ingenuamente segue para tirar satisfações com o pai. Ao concluir o nível de traição a que fora submetido, é levado cometer os assassinatos e assim tem seu arco dramático fechado, deixando completamente pra trás TUDO o que tinha. Mesmo nos momentos de extrema frieza do anão, em outro belo quadro de Graves movimentando a câmera para revelar o rosto levemente sorridente do cadáver de Shae, Dinklage se desculpa com a garota que amara de verdade. Com tudo o que vimos em dez episódios, esse foi o momento mais intenso em todos os níveis que consigo pensar.

A preocupação em deixar um roteiro fluído chega ao ponto de colocar Sandor na mesma situação de Tywin antes de morrer, com a diferença que o Lannister tinha sua privada. No núcleo de Arya, para deixar claro de vez as mudanças da personagem, vemos sua frieza ao roubar a bolsa de moedas e abandonar o Cão ali, sem o golpe fatal suplicado por ele. Em poucos segundos, D&D fizeram o que mais sabem fazer: jogaram na cara quem era aquela figura que a essa altura da série cativara o espectador. Para provocar Arya, o diálogo de Sandor resumiu tudo o que fizeram para que o odiássemos com o objetivo de provocar Arya, que nem assim o ajudou. Diga-se que nessa sequência vimos um combate entre Brienne e Sandor ainda melhor que o do Oberyn e Clegane – para surpresa e deleite dos fãs menos puristas.

De volta além da muralha, o desfecho de Bran foi mais do que revelador ao mostrar o aspecto humano do Corvo de Três Olhos. Mas se a batalha é convincente ao mostrar um grupo forte formado por Meera, Hodor/Bran e Summer (já que Jojen cumpriu seu papel na história pra tristeza dos fãs do livro), por outro lado também trouxe o momento um tanto quanto constrangedor ao mostrar esqueletos saindo da neve e uma criança que atira uma espécie explosivos mágicos. Por que estariam ali aqueles esqueletos, tão próximos da caverna, é algo que precisaria de uma explicação, já que o resultado final daquela sequência pareceu uma fase de vídeo game antes que os principais chegassem a um checkpoint. E sim, um checkpoint protegido dos vilões para que recebessem as instruções para a próxima fase, agora orientados pelo enigmático Corvo de Três Olhos. Notem que mesmo a fotografia muda de forma grosseira quando de quando eles avistam a árvore branca de folhas vermelhas com um dourado que desaparece durante a sequência de ação, o que ficou no mínimo estranho. De qualquer forma, uma vez sob a árvore (igual a outra onde Ned e Sansa faziam suas orações), Alex Graves também abusou de bons movimentos de câmera para revelar o Corvo e para mostrar como ali dentro daquela caverna o tempo e o espaço parecem ter outra conotação, já que constantemente inclina os planos para sugerir essa mudança de ambiente. O que faltou e deixou a temporada muito estranha foi a ausência dos White Walkers neste episódio final. Gostei muito da inclusão de uma cena na terra onde é sempre inverno, mas agora ao final da temporada não consigo entender o motivo de mostrar a transformação de um filho de Craster em uma criatura do gelo, já que o suspense e a dúvida funcionariam tão bem quanto, ou melhor – principalmente porque isso deve ser resgatado ainda muito adiante.

Cuidado maior que também poderia ser dispensado aos Tirells e Greyjoys, que desapareceram nos últimos episódios de uma forma que não ficou muito orgânica. A quarta temporada, como apontei em textos anteriores, trouxe mudanças da obra original sem o menor receio de cometer seus próprios erros para colher seus próprios acertos. Com saldo positivo, leva a história completamente aberta para 2015 quando muitos outros personagens serão apresentados, principalmente de Dorne e de Pyke, onde a série deve ficar um tempo.

* O texto é de autoria de José Rodrigo Baldin e pode ser encontrado em seu blog pessoal 

Veja as análises, dos episódios anteriores, nos links abaixo:

 

 

Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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