You SPOILED her children!

(Oberyn Martell)

Alex Graves parece ser o diretor que mais se aproxima de GRRM quando o assunto é violência. Esteve por trás dos episódios mais polêmicos da quarta temporada e acredito que tenha sido mesmo a melhor escolha para os que dirigiu (eu tive ressalvas sobre sua direção no seu primeiro episódio – e errei), pois graças a ele tivemos alguns planos cheios de simbolismos, dos quais destaco o momento em que Joffrey, ao morrer, aponta o dedo diretamente para a câmera (leia-se, espectador), já que naquele momento boa parte do público estava ali comemorando a morte de um garoto, como se algumas mortes fossem justificáveis. Depois, Alex Graves causou um alvoroço na cena em que Cersei é estuprada no Septo ao lado do filho morto, como se novamente colocasse o público e seus julgamentos morais em cheque, pois sim, o público aceitaria a cena se houvesse o sexo consensual, mesmo que fosse entre irmãos, em um local sagrado e ao lado do filho morto. Só por ter a coragem de expor esses temas dessa maneira, Alex Graves já merece ser lembrado pelos fãs de Game of Thrones sempre que conversarem sobre a adaptação.

De volta à direção e com roteiro assinado mais uma vez por D&D, em uma série cheia de julgamentos por parte do público, Graves tem a mão firme para conduzir o verdadeiro julgamento, de Tyrion, o episódio mais esperado da temporada, The Mountain and the Viper.

Com um clímax naturalmente reservado para o final, o episódio faz o espectador mergulhar novamente em violência extrema quando os Selvagens matam homens e mulheres pelo caminho até Castelo Negro, onde apenas cento e dois homens esperam uma horda liderada por Mance Rayder – que será o episódio épico na próxima semana. Sem dúvida, essa sequência inicial teve como grande objetivo estabelecer a frieza assassina desses guerreiros, especialmente de Ygritte, que, no entanto, mostra compaixão por uma vítima que carrega um bebê. Com isso, o objetivo é (re)estabelecer uma relação emocional com o público, que a essa altura já deve ter entendido que o reencontro entre ela e Jon Snow não será em uma banheira com água quente. O pouco tempo que vimos em Castelo Negro foi suficiente para notar o quanto os irmãos prezam uns pelos outros diante de um possível extermínio e que agora precisarão de cada corvo na batalha, ainda que sejam inimigos internos. Diálogos expositivos superficiais, mas necessários, visto que só havia divisão entre os corvos até então. Ao menos foi uma cena rápida e indolor.

Como o tema central do episódio é o conceito de julgamento, a rima temática dessa vez foi em Meereen, onde Jorah sofre uma pena leve, e injusta, por ter sido espião de Robert Baratheon. A construção da cena é eficiente e a atuação de Emilia Clarke merece destaque, já que emprega à Daenerys uma belíssima expressão de dor e ao mesmo tempo desprezo pelo Sor enquanto profere sua sentença. Belo plano aberto de Graves nos muros da cidade mostrando Sor Jorah pequeno, reduzido no canto direito da tela e cavalgando lentamente deixando tudo o que lutou pra trás. Também vale destacar os momentos antes, quando D&D decidem estabelecer um arco paralelo de amor entre Verme Cinzento e Missandei. Investir tempo nessa relação mostra o quanto, por enquanto, o governo de Daenerys é estável se comparado a qualquer castelo em Westeros. Jacob Anderson se revela cada vez mais talentoso quando tem a oportunidade de mostrar seu trabalho como Verme Cinzento e entrega nesse episódio uma tocante leitura sobre como ser castrado o levou a conhecer Missandei, e que portanto se sente feliz por ser mutilado. Como subtrama, entendo que é fundamental que seja explorada, pois por qual outro motivo Daenerys lutaria? Afinal, poder por poder, teria se lançado à luta pelo Trono de Ferro em uma Westeros totalmente fragmentada.

E é como vemos os sete reinos: afundando de vez qualquer resquício de nobreza em Theon Greyjoy ao passo que o desprezível Ramsay passa de Snow a Bolton, diretor e roteiristas acertam ao mostrar pai e filho sobre uma montanha com um enorme exército em volta e depois marchando para Winterfell, tudo isso como resultado da traição de Roose no Casamento Vermelho. Ainda que repudiemos as atitudes dos Boltons, é incontestável que, em Westeros, a decisão não fora equivocada. Quem acompanha minhas análises deve se lembrar de quando disse que uma das coisas interessantes na obra de GRRM é que ele constantemente alterna entre narrativa restrita e irrestrita para subverter o espectador. Beneficiados por essa estrutura já estabelecida pelo autor, não é por acaso que D&D e Graves decidam mostrar o exército de Bolton no mesmo episódio em que os Thenns e outros selvagens estejam tão próximos de Winterfell. Como sei o desfecho, achei essa sacada genial.

game-of-thrones-the-mountain-and-the-viperAssim como Winterfell (agora de Bolton), outros territórios de Westeros ainda precisam ser redefinidos politicamente e entre eles o Vale, do jovem herdeiro Robin Arryn, quase nas mãos de Petyr Baelish. Sophie Turner já mostrara uma excelente expressão corporal desde o anúncio do casamento entre Joffrey e Margaery, quando ficou claro que havia mais uma jogadora na guerra dos tronos atrás da ingenuidade e do sofrimento que tinha estampado no rosto. Talvez Sansa tenha tido o seu grande momento em toda a série quando com apenas um testemunho conseguiu a proteção dos senhores do Vale contra Petyr (já que revelou sua verdadeira identidade) e ao mesmo tempo trouxe Mindinho para seu lado. A interpretação de Sophie Turner é excelente quando direciona um olhar a Petyr e quando cria uma forte tensão sexual entre eles momentos depois, abandonando absolutamente a Sansa que vimos até hoje. Isso me indica que o futuro da personagem será manipular o maior manipulador da série, o que pode trazer grandes reviravoltas nas próximas temporadas e transformar os Stark em grandes (sim) vilões da série. O que falávamos sobre julgamentos?

Ah, julgamentos…

Em Porto Real, enfim o clímax do episódio: Oberyn Martell, a Víbora Vermelha, contra Gregor Clegane, a Montanha que Cavalga. Precedida por mais um grande e necessário momento entre Tyrion e Jaime, a luta trouxe a despedida de Pedro Pascal da série, que deixou uma performance espetacular como príncipe de Dorne, saiu como a grande revelação da temporada e, na minha opinião, o melhor papel entre os personagens secundários. Em seus minutos finais em Game of Thrones, Pedro Pascal conseguiu colocar em cena tudo o que Oberyn é, desde sua soberba, sua confiança, sua técnica, sua ansiedade e todo o ódio que o cegou enquanto buscava a vingança pela morte de Elia de Dorne, esposa de Rhaegar Targaryen (irmão mais velho de Daenerys), e seus filhos Rhaenys e Aegon – cito os nomes para que o leitor perceba a importância que tinha essa luta, uma vingança adormecida por muito tempo. Só pra dar um petisco a quem não conhece os livros, na próxima temporada teremos as filhas de Oberyn, conhecidas como… as Serpentes de Areia. A luta cumpriu o clímax que prometeu, embora eu esperasse um pouco mais de violência durante o combate que teve, pelo menos, um desfecho digno da brutalidade Gregor tantas vezes citadas em episódios anteriores. Mas eu esperava uma luta no mínimo mais longa para explorar ainda mais os dois grandes guerreiros.

Por fim, como citei narrativa restrita e irrestrita no começo do texto, não é verdade que nós sabemos quem matou Joffrey? Não é verdade que Tyrion já tivera sua inocência julgada pelos Deuses no Vale? Pois é. GRRM subverte nosso conhecimento de novo e Tyrion é condenado à morte pelo próprio pai – se é que é o pai…

Que venha o Castelo Negro e reta final.

Próximo episódio: The Watchers on the Wall

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* O texto é de autoria de José Rodrigo Baldin e pode ser encontrado em seu blog pessoal 

Veja as análises, dos episódios anteriores, nos links abaixo:

 

Author

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.