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Corpo e Alma é estranhamente bonito

Vale muitíssimo conferir o oitavo longa da diretora Ildikó Enyedi que ganhou este ano o Urso de Ouro em Berlim, Prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e júri acadêmico, além de ser representante da Hungria no Oscar. Ildikó que não filmava um longa de ficção há 18 anos traz um dos filmes românticos mais bonitos e confusos que vi nos últimos anos. A diretora e roteirista traz em Corpo e Alma um filme que revela beleza nas coisas mais imagináveis.

Delicadeza e sensibilidade em forma de filme e um epílogo cheio de tomadas de brutalidade jogadas na câmera como uma forma de tapa na cara do público.  Não é um filme fácil e acredito que é ideal para espectadores pacientes e que não se incomodam com filmes longos e confusos, mas que se permitem perder-se na poesia do cinema.

Trata-se de um filme romântico onde pessoas feridas se encontram e têm a chance de se curarem juntamente. Seremos jogados numa imersão em um mundo solitário, que retrata desajustados emocionalmente que perduram numa luta para se conectar um com o outro.

Prepara-se para um filme com uma fotografia excepcional (planos em detalhes minuciosos e uma experiência sensorial única), direção inteligente e sensível e um ótimo trabalho da atriz que arrebatou prêmio de Melhor atriz europeia (European Film Awards) para Alexandra Borbély. Merecidamente.

De Corpo e Alma (On Body and soul) é um filme romântico que se passa num lugar nada romântico: um matadouro bovino em Bucareste. Mas também se passa num outro lado, cheio de lirismo e onde os personagens principais são espelhados em dois cervos, que ora se aproximam e se afastam.

Já aviso que no filme há cenas explícitas de matança de vacas, desmembramentos de seus corpos e detalhes que podem incomodar, principalmente aos vegetarianos e veganos. Cenas de brutalidade causam uma agonia, mas a diretora consegue extrair imagens tão poéticas do sangue nas paredes e nos comover com o silêncio que fica antes da morte de uma vaca. Quando a câmera capta o olhar desta minutos antes de ser sacrificada poderemos comparar a inúmeros momentos que os protagonistas clamam para a câmera apenas pelo olhar um pedido de ajuda. A morte das vacas representa o interior de Mária e Endre, como se estivessem sendo dilacerados por dentro.

Li algumas críticas negativas sobre o trabalho dos atores e sua total apatia, que ambos não combinam e não convencem que são apaixonados. Discordo completamente. As atuações são na medida e acho extremamente difícil o que Alexandra nos apresenta diante da tela.

Suas estranhezas se completam e ao final da obra ficamos com aquela sensação como o amor é estranho e como nos atravessa quando chega. Somos intensos, porém temos medos de amar.

Endre (Géza Morcsány) é um introspectivo diretor financeiro de um abatedouro. Um homem solitário, em total zona de conforto sem esforço de mudança alguma, trabalhando de forma mecânica, completamente afastado de relações humanas e principalmente sexuais e que apresenta um problema físico no braço esquerdo paralisado. A vida de Endre muda com a vinda de Mária (Alexandra Borbély). Ela é a nova inspetora da qualidade de carnes do matadouro. Completamente fechada, tem respostas ríspidas e rápidas, apresenta expressões faciais quase robóticas e tem Síndrome de Asperger Tem dificuldade de interagir socialmente e sofre constantemente crítica dos colegas de trabalho, o que causa um acolhimento por parte de Endre.

O que poderia unir duas pessoas completamente fechadas e introvertidas? Como unir duas pessoas que não sabem amar? Ai está o grande trunfo do roteiro da diretora húngara, os dois protagonistas são unidos pelo mesmo sonho. A descoberta que Mária e Endre têm o mesmo sonho se dá após um incidente no trabalho, onde químicos para acasalamento de gados são furtados e são usados numa festa de 50 anos de formatura. A polícia solicita que uma psicóloga investigue e entreviste os trabalhadores para desvendar o mistério e achar o culpado.

Nesta entrevista tanto Mária como Endre revelam o sonho com um casal de cervos que vivem numa floresta com neve. Da revelação do mesmo sonho estaremos diante do longo caminho para o desabrochar do amor entre os dois e as dificuldades que ambos possuem para se relacionar. Tudo é muito excêntrico (principalmente no comportamento de Mária), o que me aproxima como espectadora com sua personagem e torço pela felicidades destes solitários.

Nos sonhos o amor acontece, mas na vida real é bem diferente e complexo.

Me afeta esta busca pelo sentir de Mária que parece oca e desconhece as coisas que consideramos “normais”. A diretora extrai sutilmente desta personagem cenas tão bonitas, onde vejo extrema beleza numa porção de purê de batata sendo amassada pelas mãos frágeis da protagonista, a tentativa de um bicho de pelúcia ser o primeiro toque afetuoso que ela se propõe a fazer e a cena impagável e estranha na busca por uma música que fale de amor numa loja de discos.

Por ser um filme lento você deve ir preparado para absorver os silêncios, dúvidas e dificuldades que estes personagens têm para se unirem. Estamos diante de quanto o amor e a permissão para que ele adentre a vida pode ser assustador. Cada passo de evolução de Mária e Endre vibramos juntos e cada desapontamento de Mária me toca profundamente.

Ainda fico impactada por uma imagem onde toca uma canção lindíssima e melancólica da cantora indie folk (Laura Marling). “What He Wrote “é a música perfeita para as cenas onde está sendo colocada e para meu gosto pessoal não há necessidade de mais trilhas num filme que o silêncio já diz tanto.

Recomende que você se permita ao assistir esta obra e deixe esta canção adentrar o peito ao fim da sessão. Acredito que o fim do roteiro (que desliza) não agrade e soe estranho, mas ainda sigo instigada pela beleza. Na sessão em que estava o público saiu somente após os créditos finais. Corpo e Alma não é fácil de engolir. Realmente não vá ao cinema esperando o comum.

Sobre Fernanda Petit

Atriz há 16 anos, apaixonada por cinema. Filha do gerente do ex-cinema Marrocos.

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