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Falando Curto e Grosso sobre “Bling Ring: A Gangue de Hollywood”


blingring_cartaz_baixaDesde seu primeiro longa-metragem, As Virgens Suicidas (1999), a diretora Sofia Coppola procura explorar as nuances do vazio existencial. Não há dúvidas em ter atingido seu ápice em Encontros e Desencontros (2003). Apesar de não alcançar o mesmo êxito em seus filmes seguintes, Maria Antonieta (2006) e Um Lugar Qualquer (2010), Sofia entregou trabalhos eficientes, dialogando com certa propriedade sobre tal temática cara a sua filmografia.

Em sua mais recente obra, o badalado Bling Ring: A Gangue de Hollywood, o foco maior parecia ser em uma ácida crítica sobre a força da atual sociedade de consumo. Um consumo não somente material, mas da identidade alheia. No entanto, mesmo parecendo fugir do assunto que permeia seus filmes anteriores, ao adaptar o artigo da jornalista Nancy Jo Sales – “The Suspect Wore Louboutins” -, Sofia Coppola toca novamente nas lacunas da vida moderna. Dessa vez, mira a juventude hollywoodiana.

Com um ritmo inicial emulando um documentário – a câmera muitas vezes é postada de maneira a captar depoimentos -, Bling Ring acompanha o dia a dia de um grupo de meninas de classe média. De um lado, temos a família de Nicki (Emma Watson): a matriarca Laurie (Leslie Mann) é uma mulher que carrega um misto de afetação, despreocupação e até ingenuidade, preferindo educar as filhas em casa sobre os preceitos do controverso livro “The Secret”.

Além da espevitada Nicki, vivem sobre o teto de Laurie, Sam (Taissa Farmiga), a filha da vizinha – de mesma idade de Nicki – adotada ainda quando criança, e Emily (Georgia Rock), uma pré-adolescente. Entretanto, esse núcleo potencialmente mais atrativo não é o que motiva a trama. Os co-protagonistas da história são a dissimulada Rebecca (Katie Chang) e o problemático Marc (Israel Broussard), um rapaz carente e com extrema necessidade de reforçar sua sexualidade. O grupo se fecha com a patricinha Chloe (Claire Julien).

Ambos deslumbrados com a vida – nem sempre saudável – que veem na TV de celebridades sempre a perigo, têm como ambição trilhar um caminho parecido. Esses são seus estereótipos. E ainda que não frequentem a mesma escola, seus caminhos se cruzam quando Rebecca e Marc contam como invadiram com facilidade a casa de Paris Hilton. Logo, o grupo passa a praticar com frequência tais invasões, não somente a mansão de Paris, mas de outras celebridades locais. Para isso, não precisam mais do que um computador. É quando Bling Ring fala sobre a atual ausência de privacidade. A priori, sobre o constante monitoramento aos famosos.

Sem muito esforço, se percebe em Bling Ring toda uma analogia ao mito de Bonnie e Clyde. Dos criminosos charmosos que encantavam multidões com suas proezas e de como o próprio povo norte-americano – particularmente, elevaria essa consideração a um âmbito maior – detêm fascinação por esse tipo caminho. Pena que em dado momento, Sofia Coppola parece não acreditar na força de suas imagens e quase coloca tudo a perder em uma cena desnecessária para reforçar toda uma ideia suplantada durante boa parte da narrativa.

O tom de deboche – ora sutil, ora mais escrachado – proposto por Sofia Coppola pode passar a sensação de que Bling Ring: A Gangue de Hollywood é apenas um apanhado pueril. Todavia, a forma sarcástica como é conduzido atribui ao filme ainda mais valor como um recorte pontual sobre um estado cada vez mais sintomático da ausência de identidade e inversão de valores.

Não é um filme perfeito, longe disso, mas propõe uma reflexão deveras interessante: para nos sentirmos vivos precisamos consumir a vida – enlatada – de outras pessoas?

Classificação: BOM

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Bling Ring: A Gangue de Hollywood (Bling Ring)

Sinopse: O filme narra a história real de um grupo de adolescentes que entrava nas casas de pessoas famosas em Hollywood para roubar seus pertences.
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Emma Watson, Kirsten Dunst, Leslie Mann, Brian Gattas, Carlos Miranda, Claire Alys Julien, Erin Daniels, Gavin Rossdale, Israel
Broussard, Katie Chang, Maika Monroe, Nina Siemaszko, Taissa Farmiga.
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Distribuidora:  Diamond Filmes
 

Sobre Marcio Tarantino

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