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Falando curto e grosso sobre “Gravidade” – Edição especial

GravidadeNosso amigo Ricardo Sócio ( Canal do Sócio no YouTube) fez uma análise sobre o filme Gravidade. Não é tão curta e grossa como costumamos realizar nessa coluna, por isso a chamamos de Edição especial.

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Acabei de assistir. E vamos aos comentários, para ódios e amores…

Comentar este filme não é fácil, porque há muitos aspectos a se analisar.

Quem me conhece sabe que eu sou absolutamente geek em relação a ciências, então vou me deter MUITO nesses aspectos.

Repito que não sou crítico de cinema. Portanto, posto minhas impressões. E, nesse filme, o que me interessa é a acuidade científica que, aliás, foi amplamente alardeada durante a divulgação.
Mas vamos lá…

Começo pelo título, que deveria ser “AUSÊNCIA DE GRAVIDADE”…

O ônibus espacial em que está Sandra Bullock é atingido e destruído por destroços de satélites russos que começaram a ser estilhaçados em uma reação em cadeia. Pelo que entendi, um foi destruído pela Rússia e os pedaços dele começaram a destruir outros. Vi o filme num arquivo sem legendas em português e sem o recurso de retroceder para rever, pois meu player, por algum ‘bug’, não permitiu o uso do recurso.

Daqui pra frente, SPOILERS!

Sobram ela e o George Clooney. E eles têm que chegar até a Estação Espacial Internacional (ISS) para usar a Soyuz como módulo de fuga. Chegam até lá usando os propulsores da mochila do traje do Clooney.

Só que a ISS também foi atingida e, no caminho o Clooney, já sem combustível, é forçado a se soltar do cordão umbilical que o liga a Bullock e acaba se perdendo no espaço.
Resumindo, ela entra na ISS, que pega fogo. E ela escapa numa Soyuz que, pra azar dela, não tem combustível pra se guiar na reentrada.

Mas ela consegue, então, chegar à Estação Espacial Chinesa e usar a nave acoplada – idêntica à Soyuz – para retornar à Terra. Mas, novamente, tudo é atingido pelos destroços, ao reencontrá-los depois que a Estação Espacial completara mais uma órbita ao redor da Terra.

No módulo chinês, ela faz a reentrada e cai no mar, próximo a uma praia.

Fim.

Durante esse tempo, Bullock conta uma lamuriosa história sobre sua filha que “escorregou, bateu a cabeça e morreu” e, como, desde então, ela “perdeu o rumo da vida”, e deixou de querer seguir em frente.

Bom… Ufa!

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O filme então é ficção científica e drama.

Indo direto ao ponto: uma excelente ficção científica (com ênfase no científica) e uma porcaria de um drama.

O drama é raso. Bullock não tem o tempo nem o ambiente pra fazer o espectador se sensibilizar e se solidarizar com sua infelicidade. Além disso, o foco do espectador é outro, porque enquanto Bullock debulha seu melodrama na forma de um falatório monótono, a tela explode em uma fotografia exuberante. E mais: o filme não dá tempo para que o espectador se preocupe com o drama. Pois o problema principal imediato “engole” o discurso choroso de Sandra Bullock. Ela está falando, falando, e o espectador prestando atenção na fotografia e pensando no problema principal que é “como diabos eles/ela vão/vai sair dessa?”.

Pra resumir, a parte dramática do filme é dispensável, desnecessária e, às vezes, beira o ridículo.
Nada mais “vergonha alheia” do que o mico que Cuarón a fez passar, ao imitar insistentemente o latido de cães que ela ouviu pelo rádio, enquanto solitária no módulo chinês. Constrangedor!
Vamos à parte científica, que é o que me interessa.

Meus comentários são limitados por meus conhecimentos. Mas como bom nerd, tenho direito a meus palpites.

O filme é extremamente cuidadoso e acurado nos aspectos científicos.

Exceção feita à absurda circunstância de um satélite explodido atingir outro, que atinge outro, que atinge outro… Se for isso mesmo que ouvi – sem legendas e sem direito a retroceder – então essa parte é absurda. Assim como pode ser absurdo o azar do dia de Sandra Bullock, em que tudo, mas tudo MESMO, dá errado. Ela é mais vítima da Lei de Murphy do que eu!

Mas, voltando à ciência… todos os sons que se ouvem são de dentro dos capacetes, isso fica bem claro. Portanto, um acerto, já que no espaço não há som.

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A dificuldade em se locomover com precisão na ausência de gravidade também é exata. Porque muitos confundem ausência de gravidade – e, portanto de PESO – com ausência de MASSA. Se você pesa 70 quilos (sua MASSA), são 70 quilos aqui na terra e são 70 quilos no espaço. Multiplique isso por 9,8 e você obtém seu PESO. Mas note que o PESO não entra na equação de movimento. Pela lei da inércia, a força necessária para colocar 70 quilos em movimento é a mesma, seja na Terra, seja no espaço. O peso (massa vezes gravidade) é irrelevante, a menos que você esteja subindo ou descendo e, portanto, enfrentando uma força contra ou tendo-a a seu favor. Mas há uma diferença entre PARAR 70 quilos na terra ou no espaço. Embora a força necessária seja a mesma, na Terra nós temos atrito com o ar, com o solo, que nos freia naturalmente. Eles nos ajudam a obter essa força necessária para parar. No espaço, isso não existe e, se você acelerar seus 70 quilos a 10 metros por segundo, você vai trombar com o que aparecer na frente com uma força de 700 Newtons, o que equivale a se jogar de uma ponte de 10 metros de altura. É, de fato, extremamente difícil conseguir controlar seu movimento no espaço. Portanto, mais um acerto do filme.

Outro aspecto: toda vez que uma comporta de ar é aberta no filme, a porta e o astronauta são arremessados para trás. Ponto para o filme. O ar é expelido com velocidade quando a porta se abre, já que a pressão externa é de zero atmosfera e a interna é de uma atmosfera. Na prática há quase o que se chama de “descompressão explosiva” em aviões comerciais.

Uma falha no filme: em situações reais, sempre que um ônibus espacial está operando no espaço, ele viaja em órbita “de ré”, ou seja, com os propulsores voltados para o sentido do movimento. Justamente para que, no caso de impacto com lixo espacial, eles, os motores, recebam o impacto servindo como escudo e o cockpit não seja atingido. Isso por que o ônibus espacial não vai mais precisar dos motores, que, aliás, queimam todo seu combustível na subida – guardem esse detalhe, voltarei a ele. E no filme o ônibus é atingido brutalmente em sua cabine, que fica destroçada, matando todos os tripulantes. Ponto negativo para o filme. Não vale dizer que os destroços é que vieram do lado errado. Quem está orbitando a Terra a cada 90 minutos é o ônibus espacial, não os detritos. Aliás, pela facilidade com que Clooney prevê, de cabeça, sem calculo nenhum, quando reencontrarão os detritos na próxima órbita, fica evidente que ele presume que os detritos estão em órbita praticamente geoestacionária e ele usa simplesmente o dado conhecido, que é o tempo da órbita do shuttle. Então, esse ônibus estava viajando com a cabine apontada para o sentido do movimento. Ponto negativo para o filme.

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Em um dado momento, George Clooney, numa alucinação de Bullock, abre a comporta de ar do módulo, enquanto Bullock está no seu interior sem traje espacial. É uma alucinação. Mas ela não deveria estranhar ter sobrevivido a essa experiência? NÃO. É um MITO que as pessoas “explodem” no vácuo, que seus olhos saltarão das órbitas como no filme O Vingador do Futuro (o original) e que seu sangue ferverá imediatamente. Isso é muito bem explicado, cientificamente, no LIVRO “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke. E brevemente explorado no filme homônimo. Na verdade, o corpo humano é capaz de suportar o vácuo por alguns minutos, desde que o sujeito conheça algumas regras básicas explicadas no livro. O corpo, estruturalmente falando, é capaz de resistir à pressão de zero atmosfera. Só pra você ter uma ideia, no topo do Everest, a pressão é de apenas 1/3 daquela ao nível do mar. Ou seja, só de subir no Everest, o corpo humano sobrevive sem problemas à redução de 2/3 – veja bem, DOIS TERÇOS – da pressão existente ao nível do mar. No espaço, você apenas perde o 1/3 restante. E, não, alpinistas não explodem por causa da pressão. Eles morrem, muitas vezes, em decorrência da falta de oxigênio, que é uma consequência da rarefação do ar. Sim, ao abrir a comporta, Bullock ficou sem oxigênio, mas apenas por alguns segundos. Tempo pelo qual qualquer um consegue prender a respiração. E bem menos do que os 4 minutos necessários para que você comece a ter danos cerebrais pela privação de oxigênio. Vale lembrar que ela não foi expelida do módulo porque estava com o cinto de segurança atado. Outra coisa, você não vai congelar imediatamente. Seu corpo está a 37 graus centígrados e não vai congelar em poucos segundos, como se fosse exposto a nitrogênio líquido. Então, ponto para o filme. Ah, contrair os músculos da traqueia, tapar os ouvidos pode ser uma boa ideia em caso de uma descompressão súbita tão forte… Contrair o esfíncter também.

Outro ponto: ela, vestindo um traje espacial, usa um extintor de incêndio para atravessar a distância entre a Soyuz e a Estação Chinesa. Perfeitamente possível. Se o corpo humano aguenta, estruturalmente falando, uma pressão de atmosfera zero, um extintor de incêndio, feito de aço, certamente também aguenta. Além disso, você pode até discutir as habilidades necessárias para se pilotar um extintor de incêndio, usando-o como propulsor. Mas dizer que é impossível, não.

Vamos ao ponto mais potencialmente lesivo às leis da física… a reentrada.

A Estação Espacial Chinesa, com seu módulo e tudo, estão perdendo altitude gradativamente, até que reentra na atmosfera e, pela fricção, começa a se desintegrar. E a cápsula espacial, com Sandra dentro, inicia sua reentrada nesse rebuliço. Sem curso predeterminado, sem um ângulo correto para reentrada. Nessa parte, minhas observações aumentam na escala do “achismo”. Mas é um achismo embasado. Se há algum astronauta lendo este post, aceito contradita.

Vamos lá… Os problemas são três:

Ponto 1: se você está em órbita, a cerca de 27.000 km/h e, se reentrar na atmosfera num ângulo muito perpendicular, você vai entrar rápido demais nas camadas mais densas de ar, e, provavelmente, seu pod vai se desintegrar, pela fricção em si, e pelo calor excessivo. Se sobreviver a isso, talvez não haja tempo suficiente para o atrito desacelerar a nave até uma velocidade que permita o acionamento do paraquedas. Porque, se descer perpendicularmente, você reduz a distância de frenagem pelo atrito de milhares de quilômetros, para cerca de apenas 80 quilômetros. Mas isso tudo está descartado no filme. Porque vemos, e é dito, que a Estação Chinesa está GRADATIVAMENTE perdendo altura, ou seja, esta em uma órbita descendente, e não despencando na vertical. Então, até aí, tudo certo.

Ponto 2: o curso da reentrada. Já vimos a seguinte frase em filmes e em documentários: “a reentrada é como acertar um alvo da espessura de uma folha de papel com uma bala”. Mas POR QUE esse ângulo tem que ser tão preciso? Lembram que eu disse que o ônibus espacial desce SEM MOTORES? Ele PLANA até sua antiga pista de pouso na base de Edwards (Arizona??). Cápsulas Soyuz também não têm propulsores. Portanto, o negócio é o seguinte: Para um ônibus espacial descer certinho, de forma que o ponto final de sua espiral descendente coincida com a cabeceira da pista de pouso, ele tem que ter um ângulo exato e preciso de reentrada, pois ele inicia a reentrada a 90 km de altitude e a 27.000 Km/h. E vai descrever uma espiral sobre o oceano e sobre a terra até tocar o solo, na cabeceira da pista. As cápsulas Soyuz não pousam em pistas. Assim como as antigas cápsulas do programa Apollo, descem de paraquedas. Mas, para que ela possa acertar sua área de pouso, o ponto de reentrada e o ângulo devem ser igualmente precisos.

Agora, se você só está preocupado em botar os pés no planeta Terra – em qualquer lugar que seja dele – não tem que se preocupar com essa precisão toda. Desde que consiga não se desintegrar na reentrada, a gravidade fará o resto.

Ponto 3: A posição da cápsula em relação à trajetória. Não se preocupe com isso, pois o desenho aerodinâmico da Soyuz, da Freedom, da Liberty Bell Seven etc. são praticamente idênticos NÃO por coincidência. Eles imitam o formato da gota, com o fundo chato. A gota cai naquela posição, com a parte larga para baixo e a parte fina para cima. E não adianta você querer que ela caísse de outro jeito. Qualquer objeto daquele formato vai reagir da mesma forma se colocado numa corrente de ar. Qualquer criança que já jogou peteca sabe disso.

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Fica faltando analisar se de fato o Hubble fica tão próximo da ISS e se ela fica próxima da Estação Russa e esta, por sua vez, próxima da Estação Chinesa (que eu nem sei se existe). Não tenho como falar sobre isso. Mas intuitivamente, diria que é forçação de barra do filme.

Bom, com isso acho que esgoto o que tinha pra comentar sobre a parte científica de “Gravidade”.

No final Bullock cai no mar, nada até a praia, e capengando por causa do período que passou na ausência de gravidade, dá uns passos titubeantes e sorridentes. Metáfora patética para o draminha ridiculamente colocado no filme. Ela “superou” a morte da filha, e está pronta para “caminhar” novamente.

Podia passar sem isso.

Ao assistir a Gravidade, esqueça o melodrama. Não dê atenção a ele, e desfrutará de um filme melhor.

Com efeitos visuais arrebatadores por seu realismo, uma fotografia espetacular, embora totalmente composta no computador.

Nota: 7,5, no gênero aventura/ficção (não misturo gêneros de filmes).

Vale ver em 3D. E em Blu-ray.

 

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Gravidade (Gravity)

Sinopse: Sandra Bullock interpreta a Dra. Ryan Stone, uma brilhante engenheira médica em sua primeira missão espacial com o astronauta veterano Matt Kowalsky (George Clooney) no comando do seu último voo antes de se aposentar. Mas durante uma aparentemente rotineira operação espacial ocorre um acidente. A nave é destruída, deixando Stone e Kowalsky completamente sozinhos, dependendo um do outro em um ambiente de total escuridão. O silêncio ensurdecedor confirma que eles perderam qualquer ligação com a Terra e qualquer chance de resgate. Conforme o medo vai se tornando pânico, o oxigênio que resta vai sendo consumido desesperadamente. E, provavelmente, o único jeito de ir para casa seja encarar a imensidão assustadora do espaço.
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Eric Michels, Basher Savage.
Gênero: Ficção-científica
Duração: 90 min.
Distribuidora: Warner Bros. Pictures
 
 

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