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Falando sobre “118 Dias”

118 dias cartazJon Stewart teria acertado em sua estreia como diretor caso tivesse ficado restrito ao drama do jornalista Maziar Bahari preso por apontar abusos e as fraudes nas eleições iranianas de 2009. Em vez disso, Stewart alivia a narrativa com situações tolas nada compatíveis com uma história séria sobre censura e autoritarismo.

Gael García Bernal vive Bahari, durante o período de 118 dias que o jornalista viveu enclausurado e acusado de ser um espião ocidental infiltrado no Irã para mostrar ao mundo a manipulação do aparato democrático para garantir Ahmadinejad na presidência através do voto. Enquanto “sofre” nas mãos do “torturador” Javadi (Kim Bodnia) que inexplicavelmente dá o nome original “Rosewater” ao filme, sua esposa (Claire Foy) usa todos os recursos possíveis dentro da mídia internacional para conseguir a sua libertação.

Primeiro vamos aos acertos. Stewart consegue levar um excelente primeiro ato com interessantes composições na tela que colocam a arte e a democracia como elementos fundamentais para a liberdade. Ainda que isso pareça óbvio, o diretor emprega interessantes planos para criar um contraponto com a opressão promovida pela religião e pelo partido do governo de modo que o Irã, outrora berço de uma cultura riquíssima, não pareça como o verdadeiro inferno imaginado por boa parte do mundo ocidental que tende a colocar todo mundo muçulmano como árabes e terrorista. O que não são, naturalmente. Stewart encaixa um importante diálogo onde tenta equilibrar a relação entre EUA e Irã, mostrando que semelhanças podem sem muito maiores do que as diferenças que criam a distância entre os dois países.

Mas o Irã é um estado dominado pela força e pela fé em representantes retrógrados que usam deus para a manutenção perpétua do poder. Como não poderia ser diferente, tende conter a expressão popular e aí chegamos ao ponto onde Bahari é preso após registrar com sua câmera a reação violenta (com mortes) do partido diante de uma manifestação contra o resultado fraudado das eleições.

118 dias Gael Garcia Bernal

E a partir daí o diretor se perde na narrativa. Também responsável pelo roteiro adaptado do livro escrito pelo protagonista, Stewart apela a sucessívos flashbacks para construir o personagem de Bernal enquanto se passam os 118 dias de prisão. Quando volta à narrativa principal, o diretor investe no desenvolvimento de torturadores inseguros e por vezes infantis, o que diminui a quase zero a tensão de estar nas mãos de um governo ditatorial. E quando precisa expor os pensamentos do prisioneiro, o diretor apela a um recurso absolutamente tolo que é trazer uma projeção do pai morto do protagonista para que estabeleça com ele diálogos que beiram a esquizofrenia. E, desculpe, se isso estiver escrito no livro do protagonista, ele poderia ter sido encaminhado diretamente a uma clínica psiquiátrica para cuidar das doenças que desenvolveu durante o período de prisão.

Além dos flashbacks, no roteiro ainda há dois problemas graves. Um deles, o mais grave, é trazer o personagem Davood (Dimitri Leonidas) para encontrar Bahari em locais pra lá improváveis várias vezes durante o filme, sempre que precisa amarrar pontas soltas do roteiro. O segundo, sem ter a segurança de conduzir um drama político como sugere a história, é a reviravolta com recursos cômicos constrangedores, transformando os torturadores em idiotas potenciais com o único propósito de ridicularizá-los (particularmente gosto da ideia, ocorre que não funciona nada nada na narrativa).

Stewart ao menos tem bons posicionamentos de câmera que quando aliados à correta fotografia Bobby Bukowski sugerem a opressão onde deveria estar mergulhado o protagonista, o que é arruinado pelas decisões equivocadas e mais cômicas do que o necessário.

Não é um filme descartável graças à atuação de García Bernal que entrega um trabalho com a habitual competência. Mas é, infelizmente, uma chance perdida de trazer para as telas do cinema um registro de um sujeito que viveu torturas nas mãos de ditadores iranianos. Afinal, Irã certamente trata seus prisioneiros com mais violência do que na experiência vivida por Bahari.

 

Jon Stewart teria acertado em sua estreia como diretor caso tivesse ficado restrito ao drama do jornalista Maziar Bahari preso por apontar abusos e as fraudes nas eleições iranianas de 2009. Em vez disso, Stewart alivia a narrativa com situações tolas nada compatíveis com uma história séria sobre censura e autoritarismo. Gael García Bernal vive Bahari, durante o período de 118 dias que o jornalista viveu enclausurado e acusado de ser um espião ocidental infiltrado no Irã para mostrar ao mundo a manipulação do aparato democrático para garantir Ahmadinejad na presidência através do voto. Enquanto "sofre" nas mãos do "torturador" Javadi (Kim Bodnia) que inexplicavelmente…

Avaliação Geral

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Direção de Arte

Regular

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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