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Falando sobre “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1”

jogos vorazes cartazTudo o que fez Jogos Vorazes ser uma grande série e se destacar (e muito!) das outras adaptações da literatura infanto-juvenil que mira Hollywood desde a primeira página está nesse terceiro e penúltimo filme.

O que faz a série ser especial é a acidez na crítica à cultura do entretenimento e à mídia manipuladora de massas, que nos dois primeiros episódios foram mostradas de forma chocante e violenta, com jovens e crianças matando uns aos outros em um reality show onde só um poderia sobreviver. E isso continua funcionando muito bem em A Esperança Parte 1, e o resultado é um filme tenso e excelente, mas proporcionalmente arrastado e burocrático – o que, pra mim, coloca em dúvida a necessidade de dividi-lo em duas partes.

Jennifer Lawrence volta intensa ao papel da heroína Katniss Everdeen, agora junto dos rebeldes liderados pela Presidente Alma Coin (Julianne Moore) no Distrito 13 que investem na tentativa de chamar os demais distritos a uma guerra contra a Capital do ditador Snow (Donald Sutherland). De um lado, Plutarch Havensbee (Philip Seymour Hoffman), Haymitch (Woody Harrelson), Gale (Liam Hemsworth), Beetee (Jeffrey Wright) e Effie (Elizabeth Banks), todos muito bem em suas interpretações, buscam construir uma figura capaz de unir os povos contra a capital e de outro, Snow usa a estratégia de atingir diretamente Katniss com seu poder midiático e com a figura de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), também intenso no pouco tempo que tem em cena) para desconstruir O Tordo, já símbolo da revolução e principal elemento motivacional dos rebeldes.

Dirigido por Francis Lawrence e adaptado por Peter Craig e Danny Strong, a história de Suzanne Collins tem um mérito inegável: na reta final, a protagonista é um nada diante do real arco político que se desenha desde o início. Ainda que seja capaz de alterar a história com suas decisões imprevistas ignoradas pelos antagonistas (e pelo seus aliados também), Katniss é uma ferramenta de mídia, uma garota alterada por constantes ameaças e reações violentas de Snow e que tem suas pequenas vitórias quando faz algo pelos familiares e pessoas mais próximas.

jogos vorazes esperanca 1

Não é a toa que o diretor Lawrence mostra Katniss no meio de uma multidão comum durante um ataque (tanto na fuga quanto no alojamento), enquanto cúpula de Coin parece estar em um ambiente bem melhor que a massa sob seu controle. E convenhamos: se Katniss tivesse tanta importância para a estratégia dos rebeldes, ela teria no mínimo um tratamento semelhante ao que tivera na Capital, entre os tributos, todos tratados como heróis daquela ditadura. Digo… se é que é uma estratégia de verdadeiros rebeldes.

O que mais interessa nessa primeira parte do desfecho é a construção d’O Tordo. Fica muito claro durante toda a projeção que há a necessidade de criar o símbolo que será usado para unir Panam contra Snow e aqui reside o grande mérito de A Esperança Parte 1. Mesmo que os rebeldes sejam os bonzinhos da história contra um vilão tirano, os meios para conquistar os objetivos são repulsivos, bem como o conjunto de regras que limitam a liberdade dos habitantes, tudo muito bem fotografado por Jo Willems e acentuado no figurino sem cores fortes no Distrito 13 (note que interessante quando as cores aparecem ali pela primeira vez – vermelho e amarelo – no arsenal e nas flechas de Katniss). E ainda que não sejam piores que jogar crianças em uma arena para que se matem, não consigo imaginar um nível aceitável para outras atrocidades, já que em prol da causa rebelde há mortes coletivas de pessoas nas missões suicidas nos distritos.

jogos vorazes esperanca 2Mostrando os bastidores da produção de propagandas políticas que mergulham Katniss e Peeta em uma verdadeira guerra fria, Lawrence e os montadores conseguem conduzir os vídeos dos dois jovens a um grande momento em que eles praticamente estabelecem um diálogo, o que faz com que percebamos a posição deles nesse contexto de disputa pelo poder. Mostrar os bastidores é por um lado um ponto forte, como quando podemos comparar as consequências do discurso de Snow e a reação de sua assessora em contraste com um discurso de Coin decorado por Havensbee (que movimenta os lábios enquanto ela profere palavras de efeito a uma multidão). Por outro, faz o filme ficar arrastado e repetitivo nas sequências sempre urgentes de ação, com várias contagens regressivas e sequências desnecessárias para a história e que estão ali para aumentar a tensão, como aquela que envolve o gato de Prim (Willow Shields).

A trilha sonora também é outro destaque. Além que de acompanhar a crescente tensão em algumas sequências, há uma interessante harmonia digna de nota entre uma canção de Katniss cuja melodia migra para a trilha e em seguida retorna à diegese na voz dos rebeldes, agora movidos também por um canto de guerra, o que ressalta ainda mais (agora através dos sons) a manipulação feita com a garota.

Mesmo longo demais, o filme funciona muito bem e sugere que uma grande reviravolta virá imediatamente no primeiro ato da Parte 2 para mergulhar o desfecho em filme de ação com Katniss definitivamente construída como uma heroína. Há uma linha no diálogo de Gale que sugere essa mudança de rumos que conduzirá a história a um final épico (não li os livros, especulação minha a seguir) que mostrará O Tordo contra um sistema político orquestrado por dois líderes aparentemente antagônicos. Pois sim, tudo sugere que a Parte 1 inteira foi uma propaganda política única, manipuladora e inescrupulosa. Ou qual seria a razão das ações defensivas de Coin e o conhecimento de Snow sobre as ações dos rebeldes? Mais do que isso: a dúvida de Gale ao final do filme… e o desfecho da protagonista e Peeta.

Continua…

Tudo o que fez Jogos Vorazes ser uma grande série e se destacar (e muito!) das outras adaptações da literatura infanto-juvenil que mira Hollywood desde a primeira página está nesse terceiro e penúltimo filme. O que faz a série ser especial é a acidez na crítica à cultura do entretenimento e à mídia manipuladora de massas, que nos dois primeiros episódios foram mostradas de forma chocante e violenta, com jovens e crianças matando uns aos outros em um reality show onde só um poderia sobreviver. E isso continua funcionando muito bem em A Esperança Parte 1, e o resultado é um filme tenso e…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Trilha Sonora

Excelente

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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