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Falando sobre “O Juiz”

Juiz cartazQuando O Juiz de David Dobkin concentra sua história no embate jurídico que envolve completamente a carreira de Joseph Palmer (Robert Duvall, intenso), o filme funciona muito bem. Isso graças a bons posicionamentos de câmera, às reviravoltas espalhadas na trama sobre a investigação de um homicídio e à montagem engenhosa que funciona até mesmo quando investe no passado dos personagens, pontos que discorro com mais detalhes adiante. O que enfraquece o filme é justamente a construção do protagonista Hank Palmer (Robert Downey Jr.) e sua relação com o passado, antes de ser um gênio milionário e bon vivant com problemas familiares, mulherengo, arrogante, sarcástico e que desenvolve uma armadura de ferr… (não, esse é outro personagem)…

Hank Palmer é um bem sucedido advogado com todos os clichês que pudermos imaginar: brilhante, o melhor da turma, defende (e vence) causas impossíveis para contraventores, faz fortuna, mas ainda assim é infeliz por não conseguir se manter próximo da família (nem da família onde nasceu, nem na família que construiu). O personagem é vivido por Downey Jr com todos os maneirismos do ator (que, sim, são divertidíssimos, mas, né?). Ao receber a notícia da morte da mãe, Hank viaja a sua cidade natal para o velório, reencontra seu pai (Duvall), juiz da cidade há mais de quarenta anos, seus irmãos Glen (Vincent D’Onofrioe Dale (Jeremy Strong, talentoso demais), sua ex-namorada Samantha (Vera Farmiga, linda) e na noite após o enterro, seu pai se envolve em um acidente de carro que pode lhe custar toda a credibilidade dos anos de serviços públicos, além de alguns anos de prisão. Então, é claro, o filho é o mais preparado para defender o pai.

O juiz

O diretor faz o que pode e consegue salvar o projeto de ser uma bomba cheia de conveniências pra lá de estranhas. Dobkin faz interessantes movimentos de câmera, como quando apresenta os dois personagens principais utilizando o mesmo ângulo, mas com a enorme diferença de que Downey Jr está em um mictório e Duvall sentado em sua mesa dirigindo um tribunal. Durante o desenvolvimento da história, o diretor , em vários momentos, enquadra o personagem de Duvall atrás de janelas que sugerem grades – mas o plano mais interessante é quando coloca pai filho no mesmo quadro, porém o pai no reflexo do vidro de uma porta, que também sugere uma prisão.

Outro ponto bastante positivo é a maneira que Dobkin usa para colocar o histórico da família, já que em vez de recorrer somente a flashbacks, usa os registros feitos em vídeo há mais de vinte ou trinta anos para que os conheçamos os momentos felizes e os motivos das desavenças entre Hank e o pai. O diretor chega à sutileza de usar imagens granuladas no presente em referência aos vídeos gravados quando há momentos que deveriam ficar gravados na memória dos personagens, ainda que Dale, responsável pela edição daqueles registros, não estivesse ali gravando.

O juiz

Apesar de uma certa inspiração do diretor para retratar esses momentos, o roteiro de Nick Schenk e Bill Dubuque é falho, repleto de conveniências absurdas, coincidências escritas para amarrar pontas soltas, diálogos expositivos exagerados (o que ocorre dentro do carro é dissonante), uma subtrama absolutamente descartável envolvendo uma bartender (que simplesmente desaparece do filme) e um apelo ao melodrama que, aliado a uma trilha sonora piegas, desconstrói a trama principal. E quando o filme volta ao eixo com um desfecho honesto, já é tarde demais.

Schenk e Dubuque apelam com tudo o que encontram no caminho para estereotipar os personagens e as situações. Os dois piores momentos são quando há um tornado como uma metáfora óbvia sobre o que ocorre na família Palmer (e que pai e filho saem do porão como se fossem capazes de enfrentar qualquer coisa) e o momento em que Hank passeia de bicicleta e encontra Samantha, uma coincidência imperdoável. As rimas visuais e temáticas que o filme apresenta são óbvias e dispensáveis, principalmente porque visam criar os vínculos emocionais que sobreviveram após anos de separação entre pai e filho, que reforçam o melodrama mais do que qualquer coisa. Preste atenção nas balas doces que Hank dá à filha e onde isso vai chegar. Além disso, note o figurino de Hank quando vai pescar com o pai quando jovem e depois de adulto.

Exageros à parte, o filme vale a pena para se divertir com Downey Jr e para se inspirar com a atuação de Duvall. A cena dos dois em um banheiro é um show de talento, especialmente porque ambos conseguem colocar um alívio cômico na cena mais tocante do filme. Billy Bob Thornton é desperdiçado pelo roteiro que o transforma em um antagonista nada tridimensional, mas ainda assim consegue entregar um bom trabalho com o pouco que tem para desenvolver. 

Quando O Juiz de David Dobkin concentra sua história no embate jurídico que envolve completamente a carreira de Joseph Palmer (Robert Duvall, intenso), o filme funciona muito bem. Isso graças a bons posicionamentos de câmera, às reviravoltas espalhadas na trama sobre a investigação de um homicídio e à montagem engenhosa que funciona até mesmo quando investe no passado dos personagens, pontos que discorro com mais detalhes adiante. O que enfraquece o filme é justamente a construção do protagonista Hank Palmer (Robert Downey Jr.) e sua relação com o passado, antes de ser um gênio milionário e bon vivant com problemas familiares, mulherengo, arrogante, sarcástico e…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Montagem

Bom

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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