Home / Falando em Linguagem / Falando sobre “Os Cavaleiros do Zodíaco – A Lenda do Santuário”

Falando sobre “Os Cavaleiros do Zodíaco – A Lenda do Santuário”

CDZ_PosterQue tristeza…

A série Os Cavaleiros do Zodíaco fez parte da minha infância como nenhuma outra série. A Saga do Santuário exibida na TV aberta fez muito sucesso na minha geração e até hoje (re)vejo episódios aqui e ali. Confesso que fiquei ansioso para ver o remake quando soube, apesar de ter torcido o nariz assim que vi o novo visual dos personagens e das armaduras – que ao final foi uma das poucas coisas que gostei. Começa muito bem, trazendo uma lógica diferente nos combates que deve encher os olhos de qualquer fã. O prólogo mostra uma luta entre três cavaleiros no espaço com uma dinâmica muito interessante quando atacam ou se defendem, além dos golpes especiais

Escrita e ilustrada no Japão por Masami Kurumada na década de oitenta para mangá , a série ganhou o ocidente com a adaptação para a TV com o anime de sucesso que narrava a histórias dos cavaleiros de bronze Seiya de Pégaso, Hyoga de Cisne, Shiryu de Dragão, Shun de Andrômeda e Ikki de Fênix, designados a proteger e salvar a reencarnação da Deusa Atena. Para isso, eles precisam cruzar as Doze Casas no Santuário, cada uma correspondente a um signo do zodíaco e protegida por um cavaleiro de ouro muito mais poderoso do que qualquer outro. Para contar essa história, dezenas de episódios foram produzidos com tempo suficiente para construir com perfeição cada personagem da série. O que me traz ao primeiro rombo na produção: o roteiro de Chihiro Suzuki tem a pretensão de recontar a Saga do Santuário, que virou a Lenda do Santuário, em apenas 93 minutos. E fica um desastre.

Cheio de furos inexplicáveis, o roteiro sequer tem o cuidado de explicar como Hyoga enfrenta seu mestre na Casa de Aquário e aparece caído na Casa de Câncer sem nenhum motivo. A maior grosseria é sem dúvida a aparição de Ikki em um momento importante, sem nenhuma explicação de como chegou ali, sem o menor respeito com o tempo estabelecido momentos antes com um relógio no pulso de Atena (pois é…). E como não seria possível mesmo passar por todas as casas em tão pouco tempo de animação, o roteiro decide empurrar a história adiante com soluções tolas a cada novo desafio. Como se não bastasse a correria, o roteiro ainda remete àqueles episódios de Power Rangers, quando o vilão vira um gigante depois de derrotado para representar uma ameaça ainda maior.

Saori

Muitos personagens soam tão tolos quanto as situações onde são inseridos. Seiya não é nem de longe o líder criado por Kurumada e nesse remake surge como um garoto patético. O roteiro até tenta preparar o crescimento do personagem ao colocar os demais como líderes em potencial, mas esquece disso imediatamente para transformar Seiya em outro sujeito no momento oportuno como única solução do roteiro. O que não acontece com os outros cavaleiros de bronze, que garantem os melhores momentos da narrativa porque não há nenhuma tentativa de criar pequenos arcos. E veja que terrível: funcionam porque são personagens bidimensionais. A falta de cuidado com os personagens chega a ofender qualquer fã da série. Nenhum personagem, porém, supera o que fizeram com Máscara da Morte. Eu, espectador, quase não passo da Casa de Câncer. O cavaleiro de ouro que defende essa casa é retratado da maneira mais absurda que encontraram. É um Jack Sparrow em uma armadura de ouro que protagoniza nada mais nada menos que um musical com as almas que já matou. Não só é uma ideia absurda, como também mal executada, mal produzida e, provavelmente, mal dublada.

Com um desenho de som irregular, com uma trilha épica do início ao fim que deveria crescer apenas na batalha final, o filme fica com pouco ritmo, cansativo e previsível para quem não conhece a história original. E imprevisível para quem a conhece, já que fica a dúvida sobre qual será o próximo desastre. O que poderia ser positivo, a dublagem conta com a maioria das vozes originais, mas foram claramente prejudicados pelos diálogos sofríveis (“Ninguém me chama de tiozããããããããããooo!”).

Os pregos do caixão são martelados quando a motivação do antagonista é revelada. O Mestre do Santuário anula qualquer motivo para que a história fosse realizada. Se na série havia a dualidade trabalhada no vilão (especialmente por pertencer a uma casa que permite tal desenvolvimento) e o amadurecimento dos heróis, aqui o diretor Kei’ichi Sato não encontra uma linha narrativa coesa e entrega talvez a prior produção já feita nesse universo. Digo talvez porque não vi tudo. Mas acho difícil que alguém tenha feito algo pior, mesmo os longas anteriores que pecavam ao exigir do espectador um conhecimento do universo de Cavaleiros do Zodíaco para que pudesse compreender o que via ali.

É difícil encontrar aspectos positivos nesse filme, mas sem dúvida estão na direção de arte. O novo conceito visual do Santuário suspenso e das casas zodiacais é um espetáculo lindo. Assim como o novo conceito das armaduras com capacetes que se fecham quando em combate e nas quais vemos luzes acesas que indicam o cosmo elevado dos cavaleiros. E só.

Como disse, que tristeza…

Que tristeza... A série Os Cavaleiros do Zodíaco fez parte da minha infância como nenhuma outra série. A Saga do Santuário exibida na TV aberta fez muito sucesso na minha geração e até hoje (re)vejo episódios aqui e ali. Confesso que fiquei ansioso para ver o remake quando soube, apesar de ter torcido o nariz assim que vi o novo visual dos personagens e das armaduras - que ao final foi uma das poucas coisas que gostei. Começa muito bem, trazendo uma lógica diferente nos combates que deve encher os olhos de qualquer fã. O prólogo mostra uma luta entre três cavaleiros…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Direção de Arte
Trilha Sonora

Regular

User Rating: Be the first one !

Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

Veja também:

Valerian oferece nada além de uma divertida experiência imersiva

Valerian consegue entregar uma experiência imersiva como poucas, exibindo um visual de encher os olhos, mas que é atrapalhada pelo fraco roteiro de seu idealizador