A franquia Planeta dos Macacos parece estar no caminho certo. Este segundo longa de uma prometida trilogia narra os acontecimentos dez anos depois do primeiro, quando a raça humana beira a extinção após uma epidemia de uma gripe símia e uma nova sociedade de macacos evoluídos começa a mostrar uma organização social semelhante à nossa durante a passagem da pré-história para a história. Traz no elenco principal Andy Serkis, que mais uma vez teve seus movimentos capturados para dar vida ao chimpanzé Caesar e Jason Clarke no papel de Malcolm que busca o convívio pacífico com os macacos com a ajuda da médica Ellie (Keri Russell) e de seu filho Alexander (Kodi Smith-McPhee). Enquanto isso, o líder dos humanos em São Francisco, Dreyfus (Gary Oldman), busca outras alternativas para garantir a sobrevivência humana.

O filme é mais uma adaptação da obra de Pierre Boulle, Planète des Singes publicada em 1963. Assim como o longa anterior, A Origem, Planeta dos Macacos: O Confronto tem o roteiro por Rick Jaffa e Amanda Silver (que também devem assinar as sequências de Avatar e Jurassic Park) e dessa vez contam com a colaboração de Mark Bomback – que se faz notar nos momentos de ação do filme. Matt Reeves entrega uma ótima direção em uma produção com alguns leves tropeços no roteiro que podem incomodar com o excesso de coincidências aqui e ali, mas que ao final funciona muito bem como sequência e antecipa um terceiro filme com a promessa de muita ação e combate entre as duas espécies.

Não digo isso por acaso: traduzir o título Dawn of the Planet of the Apes como Planeta dos Macacos: O Confronto é um erro imperdoável, já que o título original carrega o que há de mais belo na história sobre a criação de uma nova cultura liderada pelo chimpanzé Caesar. Sim, há um confronto e boas sequências de ação, mas o filme trata de temas muitos mais íntimos e que sempre estiveram presentes na sociedade humana, como preconceito, diferenças entre raças, disputa por territórios e também respeito, coexistência e cooperação. O confronto existente no longa não é vazio, mas tal evento deve ser explorado em um terceiro longa.

Esse erro na tradução do título fica ainda mais evidente com o cuidado de Reeves ao incluir bons créditos iniciais que contam rapidamente o que aconteceu com a humanidade entre os dois filmes para logo em seguida mostrar outra sociedade dominante, dos símios, com a perfeita estratégia de combate de Caesar (que terá ecos no terceiro ato) em uma disputa de território com outro grupo de macacos menos organizados. O roteiro explora muito bem algumas coisas que falhamos durante todo o processo de evolução da nossa sociedade, como por exemplo o princípio de que “macaco não mata macaco”. Assim, Caesar é um líder competente que não toma nenhuma decisão imediata e que baseia sua liderança nos bons conceitos ensinados pelo personagem de James Franco no primeiro filme. Repare a presença de um símbolo na pedra onde Caesar faz os discursos ao seu grupo e note o mesmo símbolo em outros dois momentos da projeção, uma ótima sacada de Reeves e que mostra muito da relação entre o macaco e seu treinador.

Por falar em símbolos, como a sociedade símia está no seu amanhecer e a humana perto da extinção, o diretor acerta ao incluir o ensino da escrita entre jovens macacos em contraste com o garoto humano que desenha em seu caderno como registro do que vê, sugerindo o momento das duas sociedades. E quando investe nas sequências de cooperação, também acerta ao explorar a força física dos macacos e o conhecimento científico dos humanos de forma que nenhum nem outro conseguiria atingir os objetivos retratados sem a ajuda mútua. Um detalhe muito rico do roteiro que se perde na tradução para o português é o significado da palavra “power”, que no sentido literal (e mostrado nas legendas) é a “energia elétrica” de uma usina danificada, mas que figura muito bem como o “poder” que os humanos buscam ao reativar uma hidrelétrica – sem contar que esse “poder” é a última esperança para os últimos humanos em São Francisco.

Planeta Dos Macacos 2 - Imagem 04

Tanto a cidade quanto a comunidade símia são bem construídas e convincentes e os dois cenários serão bem explorados no terceiro ato quando temos as sequências de ação mais tensas. Como linguagem cinematográfica, Matt Reeves apresenta o clímax com planos sequência memoráveis durante a batalha, em especial um travelling de 360° com a câmera posicionada no canhão de um tanque de guerra para que tenhamos a dimensão da destruição sob o ponto de vista de um personagem importante, o que me sugere ser também um plano subjetivo do terror e do ódio que sempre esteve na cabeça daquele que domina o tanque. Outra interessante escolha do diretor é a maneira que filma alguns raptos e invasões com outros planos sequência em corredores estreitos e lugares apertados para mergulhar o espectador na ação, o que cria um resultado tenso na medida certa. Essa violência está presente em grande parte da narrativa a partir da primeira virada do roteiro e Reeves escolhe bem como avisar o espectador: o tiro é disparado da direção da câmera como se fossemos nós os perseguidos a partir dali.

E de fato somos, afinal fica claro para o espectador que entre as duas espécies há aqueles que lutam pela paz e aqueles que investem na aniquilação do outro como a única chance de sobrevivência e o mais natural é que o espectador se identifique com os dois personagens principais (assim espero!). Com muita sabedoria, um dos lados dirá “Fomos nós que iniciamos a guerra e vocês não nos perdoarão”, um grande momento do filme em uma frase que poderia ser dita tanto por humanos quanto por macacos.

Ainda do ponto de vista técnico, a produção tem o mérito de diferenciar os macacos principais com marcas e cicatrizes, o que ajuda a destacá-los quando estão no meio de muitos outros animais. Não só isso, há ainda ali um princípio de figurino ao mostrar pinturas nos corpos dos macacos com objetivo de mostrar quando estão vestidos para combate sob a liderança de Caesar e quando estão nos momentos em comunidade. Isso é tão forte e relevante que a ausência dessas marcas em outro momento mostra também a ausência de liderança que culmina na mesma falta de organização vista na primeira sequência de ação do filme. O desenho de som também contribuí na maior parte da narrativa e a trilha sonora é competente especialmente quando uma música traz uma felicidade momentânea para os humanos. Falha apenas no terceiro ato quando força um daqueles temas descartáveis que buscam emocionar o espectador.

Matt Reeves encerra seu ótimo filme como promete o título original e com um close idêntico a outro já visto no começo, mas que passa uma mensagem completamente diferente que revela o desfecho do arco dramático de Caesar e o que esperar de sua espécie em contraponto com mergulho nas sombras que a humanidade tende enfrentar no confronto entre as espécies. Torço apenas para que a sequência não seja um filme de ação do começo ao fim, uma guerra total sem o propósito de debater ainda mais a intolerância que leva ao conflito irremediável. Se depender de Caesar, garanto que teremos uma memorável trilogia.

 

 

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Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

1 Comment

  1. Marcelo Nunes

    Depois de ler a sua resenha, fiquei com mais vontade ainda de assistir esse filme. Um abraço.