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Falando sobre “The Rover – A Caçada”


Um dos poucos momentos sensíveis no tenso e depressivo longa The Rover – A Caçada ocorre quando uma personagem diz que um garoto é tão macio quanto à pele no lado interno do antebraço. Um pequeno detalhe de apenas um dos excelentes diálogos do filme que mostra como um simples toque na pele macia pode ser a busca de uma pessoa naquele mundo desgastado onde nada tem valor. E ainda que este diálogo tenha lá sua poesia, é repulsivo perceber que a mulher referia-se a um garoto explorado sexualmente por ela, uma cafetina de beira de estrada. Esse é o tom do longa escrito e dirigido por David Michôd, um western futurista em uma Austrália decadente anos depois de um colapso.

A trama é sobre como um sujeito amargurado e inconstante (Guy Pearce) persegue uma gang fugitiva que rouba seu carro logo nos primeiros minutos de projeção. Durante a perseguição, conhece Rey (Robert Pattinson), irmão de um dos membros da gang e a quem ajuda, já que o encontra baleado no abdômen. Juntos, os dois buscarão o paradeiro da gang por locações praticamente vazias até uma cidade onde supostamente ficarão escondidos por semanas.

Em vez de investir em ações ou diálogos para explicar como a Austrália chegou àquele ponto decadente, Michôd tem o mérito de apostar no design de produção de Josephine Ford e a cinematografia de Natasha Braier com uma paleta dessaturada para ressaltar aquele mundo apocalíptico e com de comércios que vendem gasolina e armas atrás de portas de ferro fechadas sem contato com o cliente, um lugar imundo com uma pichação de “F O O D” na parede externa indicando o que se vende ali ou mesmo um circo inativo, onde a diversão está longe de ser o que talvez tenha sido um dia. Com um visual impecável (o que inclui um “figurino australiano” desgastado tanto quanto o ambiente fotografado) e uma trilha sonora angustiante, sobra tempo para o diretor investir no que realmente interessa no seu filme, que é o personagem de Guy Pearce.

Imersos em um mundo onde a vida vale menos do que o dólar australiano (que ninguém mais aceita em lugar nenhum), Pearce e Pattinson entregam as mais intensas das suas interpretações que vi. Pearce vive um personagem espetacular que conhecemos muito mais pela expressão corporal do ator do que pelas coisas que diz, já que raramente se expõe em suas falas nos dois primeiros atos. Repare na postura desequilibrada dos ombros do ator que, só aí, fala muito sobre o sujeito amargo e violento que se entrega ao extremo de todas as suas emoções.

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Ainda que o filme seja mesmo de Pearce, Pattinson mostra uma enorme evolução na sua carreira. De todos os atores que ficaram marcados por longas sagas, o eterno vampiro literalmente brilhante de Crepúsculo é o que mais se arriscou em papéis difíceis sem decepcionar. Ver o jovem queridinho das adolescentes viver o perturbado Rey nesse filme coloca o ator em um caminho muito interessante. No caso de Pattinson, note como ele usa muito suas expressões faciais, os olhos e tiques diversos para construir seu personagem.

E como disse que o filme investe no personagem sem buscar explicações sobre o que aconteceu para a sociedade chegar naquele estado de natureza hobbesiano (algo já feito em a A Estrada do também australiano John Hillcoat e que também trazia Pearce no elenco), o filme abre a interpretações se realmente houve um colapso no país dez anos antes da narrativa como indica nos primeiros segundos ou, o que gosto mais, se o colapso foi apenas do personagem principal – o que torna o filme muito mais intimista e interessante.

É uma pena que Michôd não resista ao ímpeto de incluir um plano final para explicar a motivação inicial do protagonista, o que empalidece um diálogo inspirado entre ele e um militar ao final do segundo ato, quando revela o que mais lhe doeu nos últimos dez anos. Se o diretor tivesse finalizado o filme sem o plano final, acredito que aquele diálogo teria sido a chave perfeita para compreensão da filosofia sob as tantas cenas de violência extrema, que acabam sendo gratuitas ao reconhecermos os motivos que nos levam àquela exposição. Isso não diminui o maravilhoso trabalho técnico e, principalmente, a atuação dos dois atores principais – o que já vale o tempo investido nessa produção.

THE ROVER – A CAÇADA 

2013 | EUA | Ação | 102 min
Direção: David Michôd
Roteiro: David Michôd
Elenco: Guy Pearce, Robert Pattinson, Scoot McNairy, David Field, Anthony Hayes, Gillian Jones, Susan Prior, Richard Green, Tawanda Manyimo, James Fallon

 

Um dos poucos momentos sensíveis no tenso e depressivo longa The Rover – A Caçada ocorre quando uma personagem diz que um garoto é tão macio quanto à pele no lado interno do antebraço. Um pequeno detalhe de apenas um dos excelentes diálogos do filme que mostra como um simples toque na pele macia pode ser a busca de uma pessoa naquele mundo desgastado onde nada tem valor. E ainda que este diálogo tenha lá sua poesia, é repulsivo perceber que a mulher referia-se a um garoto explorado sexualmente por ela, uma cafetina de beira de estrada. Esse é o…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Trilha Sonora

Excelente

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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