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Falando sobre “Tim Maia”

Tim Maia cartazMesmo que tudo acabe bem com o longa de Mauro Lima (que dirigiu o ótimo Meu Nome Não É Johnny), Tim Maia é um uma cinebiografia que perde a chance de recriar importantes momentos da música brasileira, uma vez que sua estrutura parece flertar com o que seria um excelente documentário desse cenário artístico fértil de onde saíram os mais expoentes músicos intérpretes e compositores nacionais.

Já que Mauro Lima e Antônia Pellegrino se baseiam na obra de Nelson Motta, testemunha ocular do nascimento de grandes artistas, poderiam deixar o roteiro menos episódico e sem usar narrações em off como único recurso para amarrar sequências lançadas a esmo desde a infância pobre do jovem Tião Marmita até a morte o ídolo controverso Tim Maia, duas das muitas facetas de Sebastião Rodrigues Maia.

Talvez o maior problema do filme seja justamente investir tempo demais nas demais facetas de Sebastião: assaltante, drogado, alcoólatra, misógino, truculento, explosivo e inconstante que consegue se dar bem na vida por conta de um enorme talento como compositor e cantor, além de contar com muitos momentos de sorte (alguns deles mostrados no filme são constrangedores, como o momento em que consegue abrigo porque alguém faz aniversário no mesmo dia que ele).

O roteiro é ambicioso não só por cobrir um longo período da vida de Sebastião, mas também por mostrar suas passagens na Tijuca onde cresceu, em São Paulo, Nova Iorque e Londres, já milionário e entregue às drogas e onde começa o seu isolamento, já que a partir daí, assume-se como “Tim Maia e os outros”.

E como passou por todos esses lugares bem fotografados por Ulisses Malta Jr. e Eduardo Miranda durante períodos criativos da música, Lima e Pellegrino poderiam ter explorado mais outros músicos contemporâneos, que são apenas citados ou com breves aparições (como Rita Lee, Erasmo e Ronnie Von – pouca gente sabe da importância deste último para o rock no Brasil). Já os que são desenvolvidos acabam soando caricatos, o que resulta em um Roberto Carlos tolo e superficial e um Carlos Imperial descartado pelo roteiro sem razão nenhuma.

Tim Maia

Mesmo a construção do personagem Sebastião sofre com essa estrutura episódica do roteiro, que gasta tempo contando o tamanho da família do protagonista para também ignorá-la no restante do filme, além de tratar superficialmente a genialidade do artista. E quando pensamos que o veremos no palco, Mauro Lima limita-se a mostrar o que Tim Maia tinha de pior: sua arrogância que o fazia deixar o palco, ou mesmo faltar nas apresentações.

Graças ao elenco, o filme não é um desastre. Cauã Reymond interpreta com muita segurança o amigo e parceiro de Tim Maia e é também o narrador da história (o que tecnicamente justifica a ausência de alguns momentos que não presenciou, mas… era só tirar o narrador, ora). Alinne Moraes também entrega um ótimo trabalho como esposa de Sebastião, variando entre uma grupie atrás de festas psicodélicas e esposa preocupada com os filhos quando o marido decide doar tudo o que ganha em prol de uma seita.

Sem dúvida são os intérpretes de Tim Maia que salvam o filme. Robson Nunes e Babu Santana vão muito além do que a história oferece e entregam um Tim Maia impecável. Graças a eles que conseguimos notar o sujeito tridimensional que, desprezível em quase tudo o que faz e fala, é capaz de compor músicas belíssimas com enorme peso emocional. Além disso, quando em cena, os excelentes intérpretes de Tim Maia empregam um certeiro timing cômico nas piadas, mesmo as infames que forçam gags com os idiomas inglês e português, fazendo com o que o filme seja bastante divertido – destaque para a situação que remete à música W/Brasil de Jorge Ben Jor.

Como não poderia faltar, as canções de Tim Maia são a maior parte da trilha que, sim, é excelente. Apesar de não funcionarem para apresentações dos atores (exceto nos ensaios e alguns shows que acabam mal), as canções marcam a época em tela e só. Por ser um filme musical, alguns erros de andamento e de sincronia com os músicos deveriam ter sido evitados, o que é outro ponto fraco da cinebiografia.

Se a ideia era fazer uma homenagem ao cantor e mostrar sua importância para a música brasileira, o filme deixa a desejar. Como disse, o filme conta episódios da vida de um sujeito controverso chamado Sebastião Rodrigues Maia, do jeito que o filme mostra, não merecia tanto crédito. Tim Maia também teve muitos bons momentos na vida e o filme deixa isso em segundo plano, longe do artista que praticamente criou um estilo musical.

Mesmo que tudo acabe bem com o longa de Mauro Lima (que dirigiu o ótimo Meu Nome Não É Johnny), Tim Maia é um uma cinebiografia que perde a chance de recriar importantes momentos da música brasileira, uma vez que sua estrutura parece flertar com o que seria um excelente documentário desse cenário artístico fértil de onde saíram os mais expoentes músicos intérpretes e compositores nacionais. Já que Mauro Lima e Antônia Pellegrino se baseiam na obra de Nelson Motta, testemunha ocular do nascimento de grandes artistas, poderiam deixar o roteiro menos episódico e sem usar narrações em off como…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Trilha

Bom

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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