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Falando sobre ‘X-Men – Dias de um Futuro Esquecido’

imageA franquia X-Men, com seus altos e baixos, teve seus grandes momentos quando abordou claras metáforas sobre a luta de minorias contra o preconceito. O primeiro filme trouxe o debate em âmbito político, já o segundo trouxe um tocante momento quando um mutante ouve da mãe humana se poderia não ser como era e o terceiro trouxe a possibilidade de uma cura, como se fosse possível dar uma opção para o mutante decidir ser humano ou… normal. Após aventuras descartáveis de Wolverine e um excelente reboot, este sétimo longa resgata a essência de forma épica que marcou os primeiros sem deixar de lado tudo o que fora feito nas produções seguintes. Não por acaso, há um plano onde Mística, diante de um público chocado com sua aparência, transforma-se em humana. A reação do público é ainda mais negativa quando percebe como ela pode mudar sua forma, mas fica claro o subtexto racista que a franquia combate quando percebemos que a mulher é uma negra caminhando na direção do público que se afasta de medo e desprezo. E é esse debate através de metáforas que nos faz levar X-Men muito a sério.

Dirigido por Bryan Singer (que estivera a frente dos dois primeiros – e melhores até o reboot) e escrito por Simon Kinberg (do irregular O Confronto Final), X-Men – Dias de um Futuro Esquecido tem Peter Dinklage (Bolívar Trask) como o criador dos Sentinelas, traz de volta Patrick Stewart e James McAvoy (como Professor X no futuro e no passado), Ian Mckellen e Michael Fassbender (como Magneto no futuro e no passado), Jennifer Lawrence (Raven/Mística), Hugh Jackman (Wolverine), boa parte do elenco de produções anteriores, incluindo Ellen Page (Kitty), Halle Berry (Tempestade) e Shawn Ashmore (Homem de Gelo), além de pontas especiais de alguns que ficaram pra trás.

A trama é sobre um mundo devastado por Sentinelas, robôs programados para destruir mutantes que passaram a matar também humanos com potencial de gerar filhos ou netos com mutações especiais, o que remete ao debate inicial quando humanos e mutantes se dividiam, mas que agora não são diferentes para exterminadores que identificam ambos com a mesma característica genética. Diante da emitente extinção, Professor X, com a ajuda de outros mutantes que ainda resistiam aos ataques dos robôs quase invencíveis, decide transferir a consciência de Wolverine do futuro para o Wolverine na década de 70 com o objetivo de evitar que Mística execute um assassinato que seria o ponto de partida para o desenvolvimento dos Sentinelas.

imageMergulhando o espectador diretamente em uma sequência de combates muito bem elaborados entre os mutantes dessa resistência e uma horda de robôs assassinos, Singer acerta ao mostrar como alunos de Xavier evoluíram a ponto de usar os poderes especiais em equipe como a única maneira de conseguir eliminar aqueles inimigos. Mais do que isso: respeitando o contexto apocalíptico e a ameaça que representam as máquinas construídas pelos humanos, o diretor não mostra nenhuma piedade ao incluir destinos brutais e surpreendentes de mutantes conhecidos do público logo nos primeiros minutos de projeção.

Após um prólogo expositivo de Xavier para explicar toda a missão do filme ao expectador, passamos a acompanhar a maior parte da história no passado e são muitos pontos fortes para citar. O primeiro destaque é o figurino e maquiagem dos personagens que marcam muito bem as décadas entre as linhas narrativas, especialmente vestuário e uniformes de quarenta anos atrás em contraste com o visual cheio tatuagens e cortes de cabelo estilosos dos mutantes no futuro.

Também vale destacar a criação dos cenários do futuro, principalmente o templo onde permanecem os mutantes da resistência que cria uma rima visual com o Cérebro onde Professor Xavier costumava procurar por mutantes espalhados pelo mundo. O filme traz também uma boa notícia para quem gosta de planos tridimensionais. Mesmo que não traga uma contribuição narrativa, o 3D aparece bem empregado para criar uma bela estética em alguns planos e para destacar a profundidade de campo em outros, seja em um quadro de Xavier sentado em um sofá atrás de um tabuleiro de xadrez ou em um plano plongée destacando o lustre no saguão de sua escola e, claro, em uma sequência do mutante Mercúrio, a mais inspirada do filme na qual toda a tecnologia e linguagem são aplicadas como se Singer quisesse dizer “Isso é cinema! Eu ainda posso usar bullet-time com eficiência quantas vezes eu quiser”. E usa. Mesmo.

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Outro ponto forte neste filme é a construção dos personagens dentro do contexto histórico da humanidade (em Primeira Classe o contexto era a Crise dos Mísseis em Cuba, dessa vez é a Guerra do Vietnã e um evento com um presidente norte-americano). Ainda que sejam velhos conhecidos do público, Wolverine, Xavier, Magneto e Mística movem a narrativa através da relação com seus duplos, principalmente Logan que, ao voltar para a década de 70 consciente de tudo o que acontecerá, passa a ser um espectador, mesmo sendo o protagonista, junto ao público e vê como Charles, Erik e Raven se transformarão nos personagens que conheceu anos depois. Sem deixar ninguém de fora como aconteceu no terceiro longa, dessa vez personagens secundários de filmes anteriores são mostrados com muita inteligência e cuidado para justificar o motivo de não estarem mais ali (que é o caso dos que estiveram em Primeira Classe) ou como entrarão nos eventos futuros.

Os bons momentos de Charles e Erik sobre um tabuleiro de xadrez também estão presentes e eu considero esses momentos muito importantes para estabelecer a relação de confiança e respeito entre os dois, uma vez que o jogador deve antecipar seus movimentos e Charles, dado o seu poder de ler e manipular a mente de outras pessoas e mutantes, poderia facilmente vencer Erik, que por sua vez sabe que o amigo não o trapaceará. Assim, cada vez que decide colocar seu capacete, cuja função é inibir o acesso de Charles, narrativamente sabemos que trará sérios problemas e que estará do lado oposto de Charles. Com isso estabelecido, ver Magneto no futuro sem seu capacete é o mais emblemático indício do quanto estão juntos novamente em todos os sentidos abordados até aqui.

Produções assim naturalmente já trazem efeitos especiais e visuais de tirar o fôlego, não pretendo fazer maiores comentários sobre isso, apenas ressalto que são visualmente excelentes e, do ponto de vista narrativo, todas as vezes que um mutante usa seus poderes entendemos a necessidade e como isso leva as cenas adiante de forma orgânica. Particularmente gosto mais dos momentos de Magneto, dos quais destaco a sequência em que usa trilhos de trem para um objetivo que imediatamente remete ao sistema nervoso de qualquer criatura viva. Sim, há muitos outros momentos importantes de Erik, mas esse carrega um simbolismo especial para a narrativa e para a franquia em geral.

Por fim, vemos no terceiro ato um excelente trabalho de montagem que estabelece a tensão no passado e no futuro para ligar as duas linhas narrativas. Com um final épico e tão impiedoso quanto os minutos iniciais, X-Men – Dias de um Futuro Esquecido respeita a franquia mostrando o amadurecimento de todos personagens em seus respectivos destinos e reúne no epílogo pontas de tantos outros que fizeram parte desses quatorze anos de inabalável franquia. Na minha opinião, é o melhor filme dos sete.

Espere o final dos créditos. Há uma surpresa no final pra dar água na boca do que será a produção que já tem Bryan Singer na direção de novo.

A franquia X-Men, com seus altos e baixos, teve seus grandes momentos quando abordou claras metáforas sobre a luta de minorias contra o preconceito. O primeiro filme trouxe o debate em âmbito político, já o segundo trouxe um tocante momento quando um mutante ouve da mãe humana se poderia não ser como era e o terceiro trouxe a possibilidade de uma cura, como se fosse possível dar uma opção para o mutante decidir ser humano ou... normal. Após aventuras descartáveis de Wolverine e um excelente reboot, este sétimo longa resgata a essência de forma épica que marcou os primeiros sem deixar de…

Review Overview

Direção
Roteiro
Efeitos Especiais
Elenco
Cinematografia

Imperdível

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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