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Festival do Rio 2017 – Como foi o segundo dia desta edição?


Seguindo a maratona cinéfila do Festival do Rio 2017, confira as críticas para os filmes deste segundo dia da edição.

 Tschick

O primeiro dia de maratona iniciou-se com Tschick, do diretor alemão Fatih Akin (Contra a Parede) e que consegue ser ao mesmo tempo Festival do Rio 2017tocante e divertido, sem apelar para o drama fácil.

Aqui, Maik (Tristan Göbel) é um adolescente de 14 anos que, apaixonado pela garota mais popular da turma, acaba não sendo convidado para a festa da mesma. De coração partido após fazer um trabalhoso desenho que planejava ser o presente a amada, ele tem a vida invadida pelo problemático Tschick (Anand Batbileg), um garoto de ascendência oriental (e corte de cabelo de gosto duvidoso) que acabou de entrar na classe. Num belo dia, Tschick furta um veículo e convida Maik (cujos pais ficarão vários dias fora de casa) para uma viagem sem rumo onde o verdadeiro objetivo é não ter um destino.

Depositando todas as suas fichas na dinâmica e no carisma dos dois jovens atores centrais, Akin acerta em cheio e cria uma atmosfera leva e descompromissada, mas que se revela libertadora e. Aprendendo mais com Tschick e seu estilo de vida pautado pela liberdade do que com qualquer outra pessoa, Maik entra numa verdadeira jornada de descobertas enquanto divide com o espectador lições primorosas sobre a vida e como encará-la.

Fazendo boas piadas com Richard Clayderman e incluindo uma gag magistral envolvendo Hitler (quando a inocência dos meninos é posta a prova), Tschick é uma obra envolvente, cheia de energia e boa vontade e que facilmente conquistará aqueles que aceitarem embarcar nessa jornada tresloucada.

NOTA 4/5 ✮

Dono de uma filmografia que por várias d

 Marjorie Prime

écadas usa a ficção científica como forma de analisar elementos humanos, Michael Almereyda (Cymbeline, Experimentos) é o tipo de cineasta que ainda não Festival do Rio 2017encontrou um projeto que o alavancasse. Com este Marjorie Prime, ao menos demonstra que Cymbeline foi apenas um acidente de percurso na carreira de um diretor em busca de consolidação.

No futuro imaginado por Almereyda, os entes queridos recentemente falecidos podem voltar à vida através de hologramas extremamente realistas, que trazem exatamente a mesma aparência física e a mesma voz. Bom, não exatamente voltar à vida, já que os tais hologramas são basicamente uma espécie de programa de computador capaz de assimilar as memórias do finado, através de conversas com pessoas próximas, não possuindo um limite aparente para tal.

Neste sentido, a tecnologia cai como uma luva para a idosa Marjorie (Lois Smith) que a usa para lembrar constantemente de sua antiga vida ao lado do marido. A partir daí, inicia-se uma dinâmica interessante que busca discutir a relação dos seres humanos com a perda e a importância dada às memórias.

Servindo também como uma forma de terapia para seus usuários, o holograma frequentemente busca por novas informações a fim de melhorar seu serviço, alegando que poderá ajudar com mais eficácia (seu verdadeiro propósito), mas, afinal, qual é a natureza desse programa? Ampliando a reflexão para o campo filosófico, a produção ganha força nas interpretações de seu coeso elenco, com destaque para Lois Smith e Jon Hamm.

Pecando pontualmente na dificuldade de disfarçar sua origem teatral, Marjorie Prime ainda conta com mais um grande trabalho da compositora Mica Levi (indicada ao Oscar ano passado por Jackie).

NOTA 4/5 ✮

 A Câmera de Claire

Só mesmo Hong Sang-Soo para fazer de um trivial triângulo amoroso, uma história fascinante.

Acompanhando seus personagens como um legítimo voyeur, Sang-Soo coloca Isabelle Huppert (Elle) na pele de Claire, uma turista em Cannes (que ironia) que usa sua câmera para captar momentos que, segundo ela, são capazes de transformar pessoas.

Utilizando zooms para se aproximar de conversas triviais, Sang-Soo reforça a ideia de voyeurismo, ao mesmo tempo que extrai naturalidade daqueles diálogos que, de tão triviais chegam a beirar o fútil. Mas é exatamente aí que consiste a poesia do filme, que pode não ser palatável para todos os gostos, mas a qualidade das atuações e a capacidade de Sang-Soo em observar personagens e transformá-los em figuras dignas de nossa atenção, fazem de A Câmera de Claire um exercício tão eficiente quanto seu argumento de que, aos olhos de suas interlocutoras, as pessoas sempre mudam ao final de uma conversa.

NOTA 3,5/5 ✮

 Discreet

Escrito e dirigido por Travis Matthews, Discreet começa com grande potencial artístico, mas no meio do caminho acaba se perdendo entre devaneios e firulas estéticas que distraem e tira o foco da trama.

Contando a história de um homem que ganha a oportunidade de se vingar do homem que o abusou na infância, o roteiro já possuía peso o bastante, mas Matthews ainda julgou necessário investir numa montagem excessivamente complexa. Além disso, o subtexto político parece mais uma tentativa de provar relevância do que qualquer outra coisa, demonstrando, mais uma vez, que o diretor atirou para todos os lados (acertando poucos alvos).

Em contrapartida, a boa direção de arte só é superada pelo excepcional design de som, o que acaba sendo pouco para um filme que desperdiça um elenco esforçado numa narrativa problemática.

NOTA 2/5 ✮

 Fuga! (Jailbreak!)

Há aproximadamente seis anos, um longa indonésio impressionou festivais mundo afora. Tratava-se de The Raid (ou Operação Invasão, no Brasil), um filme de ação que se destacava pela eficaz combinação de elaboradas sequências de luta corporal, uma direção arrojada e um roteiro enxuto.

O resultado foi tão positivo que uma sequência foi lançada três anos depois, mas sem o impacto do original. Dito isso, fica claro desde o primeiro minuto de Fuga! Busca desesperadamente ser uma espécie de “The Raid do Camboja”. Mas a única característica comum entre esses dois filmes (e em patamares distintos) é a qualidade das cenas de ação, que, infelizmente, também acaba sendo o único ponto positivo desta produção.

Contando com um roteiro fraco e atuações risíveis (quase amadoras), em nenhum momento parece haver o interesse em investir numa trama minimamente competente. Utilizando a câmera lenta de forma equivocada (ao combiná-la com zooms, o resultado é ridículo) e demorando a apresentar suas primeiras sequências de ação, Fuga! É o tipo de filme que coloca o prisioneiro mais perigoso de uma penitenciária numa cela cujo número é 666.

Para piorar, a produção abusa das caricaturas, o que nos leva a testemunhar pérolas como a cena em que a vilã solta um hilário “ativar o Plano C”, e o que dizer da inacreditável cena em que alguém morre com uma simples “virada de rosto”?

No entanto, tentando defender a obra, até chego a pensar que talvez essa tinha sido a intenção da produção, como ao batizar uma gangue de “Os Lagartixas”. Mas aí alguém faz uma referência a Máquina Mortífera e tudo vai pelo ralo. Ao menos as lutas, embora soem longas demais e sem gravidade, são bem coreografadas e a direção tome a ousada decisão de rodar algumas sequências em plano-sequência.

Aí o filme termina e de repente surge uma cena adicional e uma inexplicável compilação de erros de gravação. Realmente é muito difícil defender esse filme…

NOTA 1,5/5 ✮

Sobre Guilherme Khandido

Crítico de Cinema e Carioca. Apaixonado pela Sétima Arte, mas também aprecia uma boa música, faz maratona de séries, devora livros, e acompanha futebol. Meryl Streep e Arroz são paixões à parte…

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