Dono de uma carreira consolidada e vencedor do Oscar (Melhor roteiro, por Gênio Indomável), Matt Damon dispensa apresentações. Bourne cartazEntretanto, seu foco nunca foi o cinema blockbuster de ação. Por isso, quando aceitou o convite para estrelar A Identidade Bourne em 2002, provocou certa apreensão na Indústria.

Mas esse sentimento inicial se dissipou logo depois da estréia desse que se tornou um verdadeiro divisor de águas na carreira do astro e também mudou os parâmetros dos filmes de espionagem.

Responsáveis pela criação de algumas das melhores sequências de perseguição do Cinema contemporâneo, Paul Greengrass e o montador Christopher Rouse (que venceu o Oscar por O Ultimato Bourne) também alavancaram suas carreiras e deixaram saudade após o fim da trilogia. Por isso o retorno de Damon, Greengrass e Rouse foi tão celebrado, gerando altas expectativas. E eis que surge uma questão: sendo uma franquia já consagrada e responsável por tamanhas mudanças no Cinema de ação, Bourne precisa fazer mais?

Escrito pelo próprio trio, o novo filme ignora solenemente o fraco quarto capítulo da série (e que não contou com a equipe original), dando continuidade aos acontecimentos de O Ultimato Bourne. Agora abaixo do radar da CIA, Jason Bourne parece sem rumo, vivendo de pequenas lutas clandestinas enquanto ainda é atormentado por lembranças de seu antigo emprego. Jason Bourne (2016)Mas ao receber novas pistas de uma antiga aliada, Bourne percebe que seu passado pode render ainda mais surpresas.

Adotando uma estrutura narrativa semelhante à do primeiro filme, Jason Bourne resgata todos os elementos que consagraram a franquia, a começar pela inquietante direção do sempre excelente Paul Greengrass, que jamais deixa de mexer a câmera. Aqui não há espaço para planos estáticos, a câmera não pode ficar parada. E isso contribui para a criação de uma atmosfera de tensão constante, fazendo com que o espectador se agarre à poltrona e sequer consiga recuperar o fôlego.

Contando também com a valorosa contribuição de Christopher Rouse, Jason Bourne consegue ser dinâmico, mas sem tornar a ação confusa. Sim, os cortes são frenéticos, mas em nenhum momento deixamos de compreender o que está acontecendo.

O roteiro também não deixa a desejar: mesmo não se aprofundando em seus temas como na trilogia original, o novo filme não deixa de discutir assuntos pertinentes à atualidade. E é curioso notar como a série acompanha o mundo real, incluindo citações a Edward Snowden, por exemplo.

Aliás, com os atos de Snowden ganhando repercussão, é perfeitamente natural que a política de espionagem da CIA também entre em pauta. E a trama, através do milionário empreendedor interpretado por Riz Ahmed (eficiente), propõe um pertinente debate sobre a privacidade (e a frase “privacidade é liberdade” diz muito sobre a realidade do mundo atual).

Mais uma vez reunindo um elenco talentoso, a série jamais chegaria a um quinto capítulo não fosse a presença sempre inebriante de Matt Damon. Mostrando estar em forma mesmo estando longe da franquia há 9 anos, Damon continua sendo o intérprete perfeito de Jason Bourne: esbanjando vigor físico e exalando carisma, o ator jamais deixa de convencer como o letal ex-agente, carregando todo o peso dramático que o personagem demanda.

O vilão principal é outro acerto, sendo vivido por Tommy Lee Jones com a competência habitual (e como é bom ver um antagonista capaz de ameaçar sem se entregar a gritos histéricos). Jason Bourne (2016)O destaque do elenco secundário, porém, fica por conta de Alicia Vikander (vencedora do último Oscar por A Garota Dinamarquesa), que transforma a agente Heather Lee na figura mais interessante do filme.

Com um arco dramático perfeitamente delineado, é fascinante perceber que cada atitude que a personagem toma revela um pouco mais sobre suas intenções, fazendo com que nossa percepção mude ao notarmos a transformação que ela sofre ao longo da projeção.

Tropeçando em algumas reviravoltas previsíveis e numa estrutura que já mostra sinais de saturação, Jason Bourne pode até não ser (nem um pouco) inovador, mas ao menos entrega, com muita competência, exatamente aquilo que se espera.

Seus produtores parecem mais dispostos a seguirem a fórmula que ajudaram a criar do que investirem em algo realmente novo. Ou talvez só estejam se dando ao luxo de permitirem que outra franquia revolucione o Cinema de Ação.

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Crítico de Cinema e Carioca. Apaixonado pela Sétima Arte, mas também aprecia uma boa música, faz maratona de séries, devora livros, e acompanha futebol. Meryl Streep e Arroz são paixões à parte...

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