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LIVRO: Difusor de Cultura ou Material de Consumo?


Estou de volta à Central 42, direto do Congresso Brasileiro de Escritores, realizado pela União Brasileira de Escritores durante o nosso último feriado prolongado do ano, de 12 a 15 de novembro, com reflexões e muitas lições fresquinhas para compartilhar com vocês.

Fui para a terra vermelha de Ribeirão Preto/SP sem lenço e sem documento, praticamente no sol de quase dezembro, atrás de um sonho: conhecer o “fazer um livro” por trás dos bastidores, entender como funcionam as editoras e conhecer este bicho-homem-escritor, em que caverna ele vive e como ele se alimenta. Encontrei bem mais que isto nas oficinas literárias, mesas redondas (que são retangulares) e nos debates dos quais participei. Encontrei uma rica discussão em torno de assuntos que nos interessam, penso eu, pois não envolve só o livro e sua confecção, mas o que fazer com ele e o que será dele no futuro.

Além das oficinas das quais participei, com Menalton Braff e Deonísio da Silva, escritores brasileiros premiadíssimos e desconhecidos do grande público aqui no Brasil (já que são mais lidos no exterior do que na terra deles), participei de debates com outros grandes escritores: Betty Milan, colunista da Veja, Jorge da Cunha Lima, hoje à frente da Fundação Padre Anchieta, Quartim de Moraes, jornalista e editor, Waldeck de Almeida de Jesus (www.galinhapulando.com) poeta baiano premiadíssimo e com belíssimas ações sócio-culturais em Jequié, junto com seu amigo e escritor regionalista Domingos Ailton (www.domingosailton.com); Laura Bacelar, escritora e editora, e encerrei com chave de ouro com uma palestra de Affonso Romano de Sant’Ana, grande poeta de nossa língua.

O que eu vou dividir com vocês são os temas que continuam saltando na minha memória.

Primeiro, a reclamação dos escritores brasileiros sobre haver mais livros estrangeiros no mercado do que os nossos, principalmente no quesito infanto juvenil, com bruxos, vampiros e mundos fantásticos. Teve quem dissesse que jovem não gosta de ler, ou só lê “porcaria”. Dei um “alto lá”, e disse que não é bem assim. Tenho filhos em casa, e sei que se você proporcionar o convívio com os livros, eles pegam o gosto pela leitura. E mais: se eles lêem Harry Potter, é porque não há aqui escritores que tratem de temas fantásticos com a nossa mitologia brasileira, tupiniquim, com o mesmo interesse que o autor estrangeiro fala da dele, isto é duendes, fadas, bruxos. Nós mesmos não aceitamos a nossa herança cultural diversificada, a ponto de não escrevermos sobre ela. O nosso grande escritor infantil foi Monteiro Lobato, que para quem não sabe, e eu não sabia, fundou a primeira editora brasileira, pois antes eram francesas… e fez um acordo com os Correios do Brasil, espalhando livros do Oiapoque ao Chuí, literalmente. Com isso acabei conhecendo Camila Prietto (www.camilaprietto.com.br), estreando com um livro para os jovens, Em Busca do Guardião da Luz que já devorei pela metade, com muita ação, mistério e magia, e Jordemo Zaneli (http://www.facebook.com/jordemozanelijunior) com um romance eletrizante, A Garota Rockstar.

Outro assunto bem debatido foi a formação de leitores, as políticas de governo, e as iniciativas particulares, projetos de bibliotecas volantes, livros em hospitais, contadores de histórias. Percebi nesta troca, que seja lá aonde for, na favela, no hospital, no interior do Brasil, nas nossas periferias, se dermos acesso aos livros a estas pessoas, elas os devoram, literalmente. Achei linda uma história que Affonso Romano (www.affonsoromano.com.br) compartilhou conosco, verídica.

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Ele contava que, trabalhando na Biblioteca Nacional, encontrava mais parceiros no esforço de formar leitores fora do governo do que dentro dele. Um deles foi um antigo colega de escola que se formou médico, e resolveu colocar uma estante com livros no hospital onde trabalhava. Ficou muito feliz vendo os pacientes com os livros na mão, o projeto dando certo. Até que um dia, foi dar alta a um paciente que pediu para ficar, pois não havia terminado de ler um livro… contou o caso, satisfeito, para um residente, que disse que a história estava mal contada, pois aquele paciente era analfabeto. O médico, então, foi com jeito conversar com o homem, tirar a história a limpo. Quando questionou o paciente, ele disse: “eu não sei ler, não senhor, mais o doente do leito 14 lê prá mim, e eu leio na leitura dele.” Desculpem, tive que tirar o Kleenex do bolso…

Dentro do assunto de democratizar a leitura e divulgar os livros, um assunto que levava os escritores à loucura era: escrever para si mesmo ou escrever para o leitor consumidor? Eis a questão. O que os editores nos explicaram à exaustão, é que não devemos forçar a nossa natureza escrevendo do que não gostamos, mas escrevermos bem dentro da nossa especialidade, e, se não quisermos ser lidos só pelos nossos familiares, aliarmos ao nosso dom assuntos que interessem ao público. Livro de ação sem ação não vende; poesia com rima pobre também não. Portanto o escritor deve ter excelência no que faz para poder chegar ao seu público. E o público manda. Atire a primeira pedra quem já não leu um livro de auto-ajuda, ou não folheou um livro do Padre Marcelo. Isto também é nicho de mercado, gente! E também contribui para a formação de novos leitores, bem como os nossos queridos e amados gibis, companheiros desde a infância até a vida adulta.

Por fim, Affonso Romano nos pôs para refletir sobre o papel da leitura e do leitor na sociedade. Não existe sociedade desenvolvida sem cidadãos leitores, minha gente. Ele terminou sua palestra perguntando algo que nos diz respeito: conseguiremos fazer a disseminação da cultura através dos ipods, ipads, notebooks?  Saberemos usar estas ferramentas para sairmos do atraso em que nos encontramos?

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Foi então que eu propus divulgarmos através dos nossos sites, blogs, sites e e-mails dos novos escritores que desejam ser conhecidos, e não encontram espaço na mídia e na vitrine das livrarias. Ao final deste artigo espero que vocês, que estão lendo isto, entrem nos links e dêem uma olhadinha nos trabalhos de meus colegas, peçam o livro para eles caso se interessem, pois muitos aqui estão bancando suas obras. Eu também sugeri a eles que deixem um “menu degustação” da produção literária deles, para que vocês possam ver se gostam ou não. E divulguem! Os escritores brasileiros são competentes, esforçados, e precisam de leitores! Vocês!

Para terminar, fomos todos muitíssimo bem recebidos pelos escritores de Ribeirão Preto, simpaticíssimos, como Eliane Ratier (http://elianeratier.blogspot.com), que comandou o sarau com um belíssimo sorriso no rosto, e Maris Ester Souza, presidente da Casa do Poeta de Ribeirão Preto, com sua fala doce. Também não posso deixar de citar aqui mais alguns de meus novos amigos, como a romancista Sueli de Conti Jorge (www.suelideconti.com.br), a poetisa Mara Senna (http://marasenna.blogspot.com), o mato-grossense Sebastião Waldir da Silva, retratando o seu pantanal (swswaldir@gmail.com), entre tantos outros, com quem participei do Congresso.

Espero que os leitores do Central 42 tornem-se também leitores desta nova leva de escritores. E não se esqueçam de mim!

 

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