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Não tenho medo dos cubanos…


Olá, pessoal.

O Emerson Lara me convidou para fazer esta coluna, coisa que venho protelando, ignorando suas mensagens no Facebook (se eu não clicar nelas, ele não recebe a notificação de que eu as li). Bem, 90% foi por preguiça, mesmo; 10% por não saber o que escrever. Difícil escolher algo que seja interessante, relevante e se enquadre no perfil do blog.

A primeira opção era um “Manual de Sobrevivência ao Pronto Socorro” onde eu daria dicas dos melhores horários para se procurar (ou não) um atendimento médico, essas coisas. Talvez ainda faça… Mas, aproveitando o espaço e a atenção da mídia e postagens de páginas diversas no Facebook sobre o assunto do momento (pelo menos entre nós, médicos) resolvi dar aqui minha opinião sobre o assunto:

Brasil trará 6 mil médicos cubanos para atender “moradores de áreas carentes”

Todas as entidades de classe e médicos estão se posicionando contra essa medida do governo. Populista, imediatista, ela não resolve os reais problemas de saúde do país. Imediatamente, uma parte da opinião pública iniciou o grito de “corporativistas”, “mercenários”, “se não querem médicos de fora porque não tiram a bunda das capitais e vão para o interior?” e coisas assim.

Bem, vamos lá:

Pessoalmente eu não me importo se realmente virão 6000 cubanos, ou argentinos, ou portugueses ou angolanos, ou seja, lá de onde venham esses médicos.  Tenho a segurança de que após 15 anos de formado, sendo os últimos seis em UTI’s, meus empregos não correm riscos. Nada em minha vida vai mudar com essa medida (e acreditem, para a grande maioria dos médicos também não). Talvez mude para quem está se formando agora, pois teriam que “competir” com esses estrangeiros pelo emprego. Por isso, não me chamem de “corporativista”. Quero apenas dar meu parecer de quem, sim, já trabalhou muito no interior:

Faltam médicos no Brasil

Mentira. O Brasil, atualmente possui uma relação acima de 2 médicos por 1000 habitantes, acima do preconizado pela ONU e muito acima do que possuem vários países em que a saúde pública é muito melhor. Vide tabela (desatualizada):

Doc diz 1

Se for considerado apenas o Sistema Público de Saúde:

Doc diz 2

Ou seja: médicos não faltam. O que acontece é que estamos concentrados nos grandes centros.

Mas por que isso ocorre? Simplesmente pela “ganância” e pelas capitais terem os melhores salários? Não! Esse vídeo resume todo o problema em dois minutos:

[youtube video=”L-yuoPwGnlY” width=”600″]

Por incrível que pareça o interior possui excelentes oportunidades de trabalho para os médicos e, muitas vezes, com salários acima do que é pago nas grandes cidades. Médicos não nascem apenas nas grandes cidades. Vestibulandos de várias partes deste país passam anualmente em Medicina e vários deles tentam, sim, voltar a sua cidade natal e fazer carreira por lá, mas acabam desistindo pelo risco e adversidade.

Em meu caso: nasci em Piedade, interior de São Paulo, cidade a 100 km de São Paulo e quando me formei foi nessa cidade e em Guapiara, uma cidade do Vale do Ribeira, que comecei a exercer a medicina.

Em Piedade, na sala de emergência, não havia monitor cardíaco para as emergências que chegavam: quando chegava um paciente em parada cardiorrespiratória, improvisava-se, ligando o aparelho de Eletrocardiograma (ECG) no paciente como se fosse um monitor enquanto se davam os choques. Queimamos alguns aparelhos de ECG dessa forma (não foram projetados para isso) o que fez com que, no dia seguinte, não tivesse ECG na cidade.

O único PA (Pronto-Atendimento) da cidade ficava a alguns quilômetros da Santa Casa, não possuía Raios-X ou exames laboratoriais. Caso um paciente precisasse de um Raios-X tinha que se deslocar até a Santa Casa, tirar o Rx e voltar ao PA. Se houvesse alteração e necessitasse de internação era mandado de novo para Santa Casa numa via crucis infeliz. Não havia pediatras. Quem atendia as crianças? O plantonista. Não havia ambulatórios de especialidades para encaminhar o paciente caso fosse necessário. Isso, profissionalmente, é um risco enorme.

Não havia estímulo ao estudo, ao aperfeiçoamento. Pois a cidade se estagnava num patamar baseado numa cruel relação CUSTO x BENEFICIO.

Explicando melhor: Se chegasse um paciente infartado, o médico não precisava saber qual a dose de trombolítico deveria usar para desobstruir aquela artéria infartada pelo simples fato de… a prefeitura NÃO comprar esse medicamento. É muito caro. Numa cidade pequena, segundo os políticos, o número de pacientes infartados por mês é muito pouco para se investir num remédio caro que pode salvar umas poucas vidas. A gasolina para transportá-lo para outra cidade, referência, sai mais barato, perdendo tempo precioso e. vidas.

Isso não vai mudar com 6000 médicos cubanos

Na outra cidade que trabalhei, Guapiara, era o responsável pelo hospital inteiro: internados, pronto-socorro adulto e pediátrico, gestantes. Sim, fazia partos também. Tudo que ocorresse na cidade no período do meu plantão era minha responsabilidade. Recebia um mês, outro atrasava, no outro recebia o anterior e assim foi durante 6 meses. Desisti após seis meses com três meses sem receber e no dia que fiz um parto de um bebê sentado, situação que exige um obstetra, pois pode evoluir para uma cesariana de emergência (que, claro, eu não saberia fazer). O bebê nasceu bem, graças a Deus e não por mérito meu. Fiquei ali, horrorizado, vendo-o nascer. Sorte… muita sorte… minha e deles. Mãe e filho poderiam ter morrido. Eu seria processado e, com certeza, perderia meu CRM.

Tudo isso no estado mais rico do Brasil, a respectivamente 100 e 250 km da sua cidade mais rica. Fico imaginando como será trabalhar no interior do Nordeste, do Norte.

E é por isso que preferimos as capitais e grandes cidades. Por que nelas temos as mínimas condições de trabalhar, cada um na sua área, sem o pavor de ser o responsável por uma vida, por um procedimento para o qual não fomos treinados, para não sermos responsabilizados, processados por mortes, pois sabemos que, sim, se aceitarmos trabalhar nessas condições, estamos aceitando os riscos.

Simples assim… E isso não vai mudar com 6000 médicos cubanos.

 

Sobre Luiz Freitas