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O retorno de “Game of Thrones”: Two swords


GOT 1“She was spoiled by the Mountain” (Oberyn Martell)
 

Benioff e Weiss, criadores de Game of Thrones, sabem satisfazer o público da série. E como são os profissionais com maior domínio da história (lembrem-se de que além de GRRM, eles sabem como a história termina antes mesmo da publicação dos últimos livros), esse primeiro episódio não seria o mesmo se não fossem também os responsáveis pelo roteiro e direção.

E com mão muito segura, Weiss apresenta uma sequência inicial inteligente trazendo imediatamente Ned Stark de volta ao derreter sua espada de aço valiriano Gelo (uma belíssima referência a Gelo e Fogo, tema original da série) para forjar duas novas espadas para a Casa Lannister. O plano do aço derretido escorrendo nos moldes das duas novas armas que remete a dois dentes de leão (nome de uma das espadas) e a trilha orquestrada de As Chuvas de Castamere simbolizam o poder que Tywin Lannister possui logo no início.

Dividir uma espada em duas é ainda um simbolismo recorrente ao longo desse episódio. Um estilo definido em outras temporadas, pequenos conflitos são distribuídos nos núcleos paralelos e dessa vez percebemos um roteiro que enfatiza bem a divisão que todos os arcos devem sofrer. Há tensões entre Tywin e Jaime, assim como entre Daenerys e seus Dragões, entre Daario e Verme Cinzento,  entre os corvos na Muralha (Janos surge como mais um oponente de Jon Snow em Castelo Negro) e entre selvagens e Thenns que são contrapostas com a aparente união entre Arya e Cão ao final do episódio, construída antes com um diálogo sobre um cavalo para a menina, que já não é nem a sombra de uma garota nobre, mas sim uma assassina vingativa – o que abre uma discussão: até que ponto a violência se justifica? Somos capazes de torcer por Arya? Certamente o espectador deve torcer para que se torne cada vez mais violenta dadas as suas motivações. Ela pode atacar pelas costas e matar um inimigo já derrotado e… tudo bem? Arya, assim como o Cão, deve estabelecer suas próprias regras, como ficou claro no diálogo inicial dos dois.

GOT 2

Sobre diálogos, sendo primeiro episódio, não poderia faltar exposições e é uma grata surpresa que diálogos expositivos tenham sido muito bem utilizados tanto para apresentar o histórico de personagens da Guarda Real quanto para relembrar o público de acontecimentos passados nos arcos narrativos de Jon, Arya, Sansa e, o mais importante de todos nesse momento, para expor as motivações de Oberyn Martell de Dorne.

O que nos traz ao grande alívio dos fãs tão ansiosos pela escolha de Pedro Pascal para assumir o papel deste príncipe. Em mais uma sequência impecável, Weiss acerta ao criar suspense enquanto Tyrion o aguarda em uma comitiva vinda do sul, deixa para apresentar Oberyn em outro cenário e move a câmera pelas costas de Pascal até posicioná-lo com um fundo vermelho, cor que remete ao perigo e também ao seu apelido Víbora Vermelha. Não só por esses motivos a sequência é impecável: assim como quando conhecemos Mance, em poucos minutos descobrimos que um personagem nunca visto em três anos de série é bissexual, extremamente perigoso, habilidoso com armas curtas, nada dado a convenções sociais (sua amante em uma visita oficial é uma bastarda) e está em Porto Real para vingar a morte da irmã.

Assim como serviu a composição de cores no bordel para dar informações ao espectador, o quarto de Cersei, antes cheio de tapeçarias e móveis bem construídos, agora surge vazio e com cores pálidas. Já Daenerys, que antes usava um figurino surrado e caminhava sempre por um enorme deserto, agora caminha por uma encosta arborizada onde predomina o verde e que simboliza sua evolução. Daenerys já se consolidou na temporada passada como uma libertadora de povos oprimidos e não é a toa que recebe de Daario três flores que remetem às cores da Revolução Francesa, uma referência visual bem interessante para os padrões da série. Possivelmente o núcleo mais caro da série com muitos efeitos especiais para a criação dos dragões, que, por sinal, parecem valer o que custam.

GOT 3

Com ótimo trabalho de montagem para alternar os núcleos (tiveram o cuidado de filmar uma estátua de Joffrey matando um porco selvagem como recurso de raccord antes de mostrá-lo pela primeira vez), o primeiro episódio posiciona parte dos personagens principais diante de conflitos internos que formam rimas temáticas, como apontei nos primeiros parágrafos. Em termos narrativos, fico com a impressão de que os personagens que ficaram para o segundo episódio, como Stannis, Bran, Varys, Yara, Theon e Petyr, são aqueles que se beneficiarão da resolução desses problemas abertos em cada arco.

Gostei demais. Ficou acima da minha expectativa. Não esperava ver algo tão forte quanto o Casamento Vermelho. Agora sei que estava errado.

* O texto é de autoria de José Rodrigo Baldin e pode ser encontrado em seu blog pessoal – http://jrodbaldin.wordpress.com/2014/04/07/game-of-thrones-s04e01/ *

 

Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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