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“Polícia e Ladrão” – Uma brincadeira não mais como antes

charge-policia-e-bandidoEstava eu chegando em casa e a molecada, aqui do condomínio onde moro, brincava de “polícia e ladrão“.

Brincadeira tradicional.

Todo moleque que se preze já brincou disso fazendo de garrucha um cabo de vassoura ou um pedaço de madeira de construção, prendendo os bandidos, todos orgulhosos e mantendo-os sob custódia em suas cadeias de brinquedo, às vezes de forma respeitosa, outras de forma autoritária ou ainda de forma truculenta. Sempre com certo orgulho de serem os heróis que prezavam pelo bem e livravam o mundo do mal.

Porém, algumas peculiaridades me chamaram a atenção.

Primeiro que rolava uma briga entre os moleques pra decidir as posições na trama, e a discussão era pra ver quem ganhava o papel de… bandido. Nenhum deles queria ser o policial. No meu tempo queríamos todos ser os policiais, os heróis, os mocinhos. Os papeis que sobravam, no meu tempo, eram os dos meliantes.

Resolvida à pendenga, partiram os moleques pra brincadeira.

Pasmei novamente.

policia ladrao

Os perseguidos eram os policiais que ao serem pegos pelos bandidos eram postos ao chão e fuzilados com as armas de brinquedo, aos gritos e imitações exageradas de rajadas de metralhadoras, além dos xingos de ódio proferidos pelos moleques. As mortes de brinquedo eram esquizofrenicamente comemoradas e novas caçadas eram iniciadas.

Os moleques (os bandidos) adotavam pseudônimos como navalha, tripa-seca, cicatriz, rasgão, estocada, mata-playboy, enquanto os policiais eram chamados apenas de “gambé”.

Fiquei um tempinho ali olhando aquela brincadeira dos moleques e achando meio estranha essa nova versão da tradicional brincadeira onde os “guardiões da lei e da ordem” que antes eram admirados e imitados, como heróis nos sonhos infantis, eram agora caçados e executados como animais peçonhentos.

Tenho alguns vizinhos que são policiais e fiquei imaginando o que passou por suas cabeças, quando ao chegarem de seus trabalhos nas corporações, batalhões, delegacias, etc., deram de cara com essa pseudo-chacina-infanto-juvenil…?!?!?!

E o que daria origem a isto?

As companhias, diriam alguns…

A violência vivida no dia-a-dia, diriam outros…

Ledo engano. Trata-se de garotinhos de condomínio, classe média, tratados a pão-de-ló, leitinho com pera, perua pra escola, bisnaguinha com Yakult pro recreio. Portanto a vida dura não pode ser. Talvez a mídia, o padrão cultural desaculturado reinante ou o sensacionalismo do jornalismo popularesco…

Sei lá…

Sinal dos tempos…!!!

Sobre Rogério Portela

Rogério Portela é nascido em São Paulo, casado,pai babão, geógrafo, professor, cinéfilo, músico guitarrista amador, judoca, ex-escoteiro, ex-colecionador de quadrinhos, fã de música (boa) principalmente rock n' roll, leitor contumaz de filosofia, sociologia e temas que botem em cheque nossas certezas ou a falta delas.

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