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Um papo com Adhemir Marthins, escritor de “Apoteose dos Gatos”

Adhemir Marthins nasceu em Joaquim Távora, no Paraná em 1966, e mora atualmente em Ribeirão Preto, São Paulo. É professor graduado em História e Filosofia com Pós Graduação em História Contemporânea. Publicou em 2010 o Romance “UM EXÍLIO E UM REINO” com apresentação de Menalton Braff e em 2011 o livro de Contos “APOTEOSE DOS GATOS”. É Cronista do Jornal O Atlântico Diário de Santa Catarina. Em 2010 foi Finalista do Prêmio Paulo Leminski de Contos.

Conheci Adhemir Marthins, primeiramente, pelo facebook, através de escritores de Ribeirão Preto. Fui conhecê-lo pessoalmente na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, quando tivemos uma conversa muito agradável sobre literatura e vida.

Convidei-o para esta entrevista, para que conheçam um pouco mais deste escritor brasileiro, graduado em Filosofia e História, que vive em Ribeirão Preto, mas veio “importado” do Paraná.

Mara Senna, Paulo Fernando, Adhemir Marthins e Ana Claudia Marques

Adhemir, quando a leitura começou a fazer parte de tua vida?

Claudia, não saberia precisar isso, mas lembro-me que os livros não faziam parte do cotidiano de minha família. Em minha casa não havia livros, a não ser uma Bíblia antiga que pertencera a meu avô. No entanto, muito cedo comecei a me apegar a gibis, que com extrema dificuldade conseguia para ler. Eram raros. Diferentemente de muitos autores que começaram lendo Monteiro Lobato, eu comecei pelo gibi. Eram minhas fontes primárias para as primeiras histórias que viria a escrever, mas também em formato de gibi, já que não conhecia a linguagem dos livros. Engraçado, a presença deste tipo de literatura foi tão forte em minha adolescência, que até hoje conservo exemplares raros daquela época. Os gibis foram importantes para a minha formação como escritor hoje. Um maravilhoso começo.

Quais são as tuas referências literárias?

Comecei a ler literatura tardiamente quando já estava no antigo ginásio. Dois livros me marcaram muito na época: “O Menino de Asas” e “O Cabra das Rocas” de Homero Homem. Fiquei impactado com as histórias destes livros, tanto que tenho em minha biblioteca os exemplares que adquiri posteriormente. Queria saber mais, ler mais, mas mesmo naquela época os exemplares eram poucos na biblioteca da escola, pois estudava em uma escola pública de uma pequena cidade no interior do Paraná.

O meu acesso aos livros de fato aconteceram quando fui parar em um Seminário. Então lá comecei a tomar conhecimento deste vasto mundo das palavras. Não sabia que havia tantos escritores, e olha que eu estava entrando no segundo grau. Depois, no curso de Filosofia, fui me deparando com alguns autores que acabaram norteando minhas idéias, mapeando a minha existência naquele momento. Jean Paul Sartre, Albert Camus, Franz Kafka, Sigmund Freud eram os autores que mais lia, entre tantos outros.

Nessa época fui apresentado a dois autores, para mim muito importantes também: Milan Kundera, por quem tenho uma admiração profunda e Humberto Eco. Poderia dizer que estas são as minhas referências estrangeiras, mas alguns brasileiros também estavam na cabeceira: Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Nélida Piñon e claro, Machado de Assis e outros ilustres clássicos brasileiros. Somos uma mistura. Dessa mistura criamos nossa maneira de ver o mundo, de interpretá-lo e acabamos formatando um estilo próprio. Basicamente são estes autores que estão sempre à minha volta.

Você hoje tem dois livros publicados, “Apoteose dos Gatos e Um Exílio e Um Reino”. Quando foi que nasceu o escritor Adhemir Marthins?

Penso que o escritor não surge assim de um dia para outro. É uma construção permanente. Tenho escritos guardados a mais de vinte anos. Romances escritos na década de 1980. Tornamos-nos conhecidos a partir de um livro publicado, mas antes disso o escritor está latente, produzindo, querendo romper a própria casca. Um escritor não decide que quer ser escritor sem antes haver a priori essa potencialidade. Tudo converge para um ponto, mas até lá há um processo que não para.

Um escritor surge neste contato com a palavra e se descobre lendo, este é o primeiro passo. O escritor em mim e em todos os que conhecemos nascem assim… Embalados pelo livro. Este é o canto da sereia. A magia, o feitiço aconteceu quando curiosamente abri os livros, e esta curiosidade felizmente não acaba nunca. Escrever é isso, salvar o mundo do excesso da curiosidade, as minhas e as dos outros.

Sei que você, além de escritor, tem agora uma editora, a Redemoinho. Como você vê o mercado editorial no Brasil? E dentro deste mercado, onde se encaixa o e-book para você?

Não sou pessimista, se o fosse não teria encarado este novo desafio. Sou e estou otimista com o mercado editorial brasileiro, claro não tenho por hora pretensões gigantes e nem ambições triunfalistas acerca do livro, mas quando decidi desenvolver este projeto a intenção primeira, e talvez a única, foi pensando nos escritores novos.

Quantos bons escritores novos temos por aí? Digo, autores que estão escrevendo, produzindo bons textos. Há muita porcaria, muito lixo, sendo publicado até mesmo por editoras grandes, apesar de isso ser relativo. Há quem goste e quem detesta. O que quero dizer é que tem muita gente boa sem espaço, sem visibilidade. A descoberta destes “novos” escritores não vai acontecer da noite para dia, mas de uns tempos para cá, com as facilidades para se publicar, isso favorece para que apareçam bons autores que estão distantes da grande mídia. A internet que abriu o caminho para as publicações no formato digital é uma prova disso. Muitos autores estão sendo reconhecidos por seus trabalhos. Mas é preciso ainda suar a camisa. Minha intenção como editor é ser mais uma vitrine a estes novos autores. Criar possibilidades… Caminhar junto.

Como disse a internet é um campo vasto de possibilidades. O livro em formato digital está acontecendo, não substituirá o livro em papel, mas é uma ferramenta a mais não só para os novos autores como também para editores.

Te conheci numa Feira do Livro em Ribeirão Preto. Tenho visto a ocorrência deste tipo de evento em várias cidades do interior paulista. Estas Feiras do Livro conseguem efetivamente, aproximar escritor e seu público?

A princípio parece que não, pois a frequência de pessoas participando dos salões de ideias, cafés filosóficos, ainda é pouco, e por vezes quase sempre os mesmos. O que existe é muita gente circulando pelos estandes, na maioria crianças e jovens procurando gastar o cheque livro que ganham nas escolas oferecidos pelas Prefeituras como incentivo. O que temos é quantidade de pessoas nas Feiras e pouca qualidade, no que se referem ao interesse pelos escritores e suas obras.

Há muito interesse por outras atividades que são incorporadas às Feiras, principalmente as atrações musicais. Penso que o modelo de Feiras grandes não funciona como se espera. Tenho visto e participado de Feiras menores com melhores resultados. Tanto a Bienal de São Paulo, como a de Ribeirão Preto e tantas outras precisam ser repensadas. Nestas Feiras a grande referência é o livro, no entanto, não é o que se percebe. Outras atrações são importantes, mas não devem ocupar o mesmo espaço do livro e dos autores. Parece um samba do “crioulo doido”.

Outro dado importante, é que os escritores precisam ser mais valorizados nestas Feiras. Em Ribeirão Preto é possível perceber uma melhora neste sentido, já que os autores locais estão participando efetivamente da Feira, mas há ainda muito por fazer. Pessoas competentes e verbas para isso há, faltam apenas vontade e senso de organização.

Curiosidade: tem algum projeto literário novo em andamento?

Alguns… Estou trabalhando em um romance novo a pouco mais de um ano e meio, que deverá ser lançado em 2013. Também revisando outro para o próximo ano. Mas isso tudo depende de outros fatores, inclusive dos textos que me chegam de outros autores para avaliação e o acompanhamento que faço aos que já estão sendo publicados pela Editora Redemoinho. Além claro, de dar continuidade à divulgação dos que já foram lançados. Filhos só os deixamos depois que crescem, ainda assim ficamos o tempo todo por perto.

E por último, você tem algo que gostaria de dizer a quem está nos lendo?

Leiam-nos… Compartilhem… Quem guarda para si as riquezas não é só capitalista, mas também mercenário. Na literatura como nas demais áreas de nossa vida devemos ser socialistas. A partilha e a comunhão de idéias são importantes. Isso nos fortalece com leitores, escritores e editores. Uma dica é que leiam, leiam muito. Não existe um bom escritor que não seja um grande leitor. Precisamos nos alimentar da matéria da qual nós escritores somos feitos: a palavra.

“Ninguém dá o que não tem.”

Obrigada, Adhemir, pela entrevista!

Obrigado eu, e sigamos em frente.

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Apoteose dos Gatos

Autor: Adhemir Marthins
Gênero: Contos
Editora: Coruja
No segundo livro de Adhemir Marthins, Apoteose dos Gatos, uma série de contos se entrelaça com um tema comum a todos eles: o cotidiano. Misturadas à nossa realidade, as narrativas são contextualizadas e sedimentadas nas pequenas ações humanas, muitas vezes dura, opaca, conflitante, e também, muito divertida. Um conto ou outro às vezes parece uma crônica concreta de pessoas que se cruzam diariamente. Os textos curtos não diminuem o conteúdo da vida impressa como matéria prima aos nossos olhos. Ler os contos do autor é como reviver as próprias histórias, mas sob um prisma peculiar e engrandecedor, que sugere olhar o entorno para melhor compreendê-las.
 
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