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Um perfil para dois mostra reconciliação com a vida


Um perfil para dois estreia dia 9 de novembro e fez parte do Festival Varilux de Cinema Francês 2017.

Se prepare para um filme que fala como é bonito se reconciliar com a vida.

Temos Pierre ( Pierre Richard) um aposentado, viúvo há dois anos e solitário que não sai de casa. O coadjuvante desta história é Alex um jovem escritor ( aspirante) frustrado e desempregado que namora Juliette ( Stéphanie Crayencour) e vive com está na casa da sogra Sylvie (Stéphane Bissot) , sendo sustentando por está família.

Sylvie decide arranjar um trabalho para Alex e o contrata para ensinar os princípios básicos da informática para o seu pai. O pai de Sylvie é Pierre e a vinda do jovem a casa do idoso será uma grande virada, numa vida parada que o protagonista apresenta.

A condição para Alex ter este trabalho é não revelar que ele namora Juliette, pois o avô está brigado com a neta, pois ela deixou um bom partido para estar com um novo namorado que ela sustenta, que no caso seria Alex.

A alegria de estar na internet reacende em Pierre a possibilidade de se apaixonar novamente. Em um site de encontros ele conhece Flora, uma jovem de 31 anos que seduzida pelo romantismo e lábia de Pierre , lhe propõe um primeiro encontro. Mas a confusão acontece a partir do momento que ele põe como foto do seu perfil de relacionamento a foto e idade de Alex e não a sua.

Agora Pierre tem que convencer Alex a se passar por ele.
Um perfil para dois nos mostra o quanto conversas online podem ser recheadas de mentiras e segredos e vemos nas telas Pierre Richard interpretando com maestria um Cyrano de Bergerac moderno.

Diretor e roteirista Stéphane Robelin (“E se vivêssemos Todos juntos” e “Real Movie”) nos apresenta um filme gostoso de ser assistido. Uma comédia romântica nada piegas e que ao seu final poderia até ser mais corajoso, mas que talvez nos traga o final que aconteceria na vida real.

Mesmo que o filme fale de solidão (e a solidão será revelada de todos do filme e não apenas do personagem central) ele é um filme leve, bem humorado, piadas colocadas em momentos certeiros, uma onda amorosa e é simples. Uma comédia fácil de ser adorada e principalmente pela empatia que criamos com o personagem de Pierre que mescla uma rabugice e poesia da terceira idade.

Toda esta situação de encontros que surgem a partir da internet é demonstrada de forma engraçada, cheia de situações inusitadas, onde a mentira de Alex se passando por Pierre só vai aumentando como um vício. É difícil não se envolver com a situação e entramos fácil nessa brincadeira de amar novamente que Pierre nos leva.

Flora se apaixona pelas palavras de Pierre, mas está encantada pelo visual de Alex e acredita que ele é aquilo tudo que Pierre descreve na internet. Alex aceita ajudar o velho, pois ele apela que poderá ser sua última chance na vida de amar novamente e Alex percebe que está se envolvendo de verdade com Flora no mundo real.

Será possível alguém já velho amar novamente e ter uma relação com alguém jovem? O filme nos traz uma reflexão sobre o preconceito que se tem com o velho e o quanto as próprias famílias não acreditam no potencial de quem os considera ultrapassado. Isso se vê na ótima cena em que Juliette e Sylvie se sentem totalmente desconfortáveis ao imaginarem que o avô / pai pode ter voltado a ter uma vida sexual ativa e tenha mudado radicalmente.

Durante a sessão me questionei se teria preconceito com tal situação ( meu pai namorando uma mulher mais jovem ou até mesmo namorando com minha mãe) e percebo o quanto é difícil no dia a dia termos contato com casais idosos namorando ou até mulheres/homens com companheiros mais jovens.

Que bom que ao fim da sessão me deparei no ônibus com um casal idoso que dormiam de forma afetuosa sobre o ombro do outro. Ali me deparei com a imagem que Flora narra no filme, quando encontramos alguém que nos mostra que a felicidade é nossa companheira quando temos alguém de verdade ao nosso lado.

A direção acertou nas escolhas de duas atuações: Pierre Richard e Fanny Valete. Pierre é um excelente ator, nos trazendo um homem de idade engraçado, que conquista facilmente a plateia a cada cena e ao fim se deseja um final feliz para o personagem. Fanny Valete é uma atriz lindíssima e com uma doçura irresistível e na cena final nos presenteia com um desabafo tão bonito e tão sincero (uma das cenas mais criativas de desabafo que vi no cinema), nos oferecendo um belo trabalho de atriz.

Outra escolha positiva foi a trilha sonora de Vladimir Cosma que nos pega certeiro no coração com os acordes melancólicos do piano e por toda trilha que combina perfeitamente com o clima Parisiense.

Desconhecia o trabalho do ator Yaniss Lespert ( “Tudo contra Léo”) e não sei se é uma nova aposta do cinema francês, pois o ator é bem interessante fisicamente, mas parece que ele imergiu tanto na energia do personagem frustrado que é difícil em alguns momentos seu desânimo. Ficamos em dúvida se a atuação é boa ou falta um algo mais que o ator poderia ter doado ao personagem. Destaco a cena do primeiro encontro entre Alex e Flora, onde Lespert aproveita as boas sacadas do texto e consegue um bom momento.

Se você necessita sentir aquela sensação de frio na barriga do primeiro encontro, está desencantado com o amor, aprecia Paris com toda sua beleza e quer sair com um sorrisinho leve do rosto, vá realmente assistir “Um perfil para dois”.

Sobre Fernanda Petit

Atriz há 16 anos, apaixonada por cinema. Filha do gerente do ex-cinema Marrocos.

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