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Uma Família de Dois

Uma Família de Dois diverte, mas não consegue emocionar

Desde que despontou em 2011 com o sensível Intocáveis, o ator francês Omar Sy rapidamente alcançou o topo em seu país de origem. Uma Família de DoisDe lá pra cá, alternou produções caseiras de grande sucesso (o bom Samba e o ótimo Chocolate, por exemplo) e participações em blockbusters hollywoodianos (o excelente X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido e o bacana Jurassic World). Entretanto, não importando a natureza da produção em que atua, o que Sy sempre carrega consigo (além de seu talento) é seu carisma, o que muitas vezes acaba mudando de patamar o filme que estrela. E é exatamente isso que ocorre com este Uma Família de Dois (Demain Tout Commence, no original).

Adaptação francesa do filme mexicano “Não Aceitamos Devoluções”, o roteiro acompanha o irresponsável Samuel (Sy), que trabalha em um iate nos arredores de Marselha, o que lhe proporciona a oportunidade perfeita para dar verdadeiras festanças, ao mesmo tempo em que mantém segredo de sua empregadora.

Num belo dia, porém, Samuel recebe a visita de Kristin (Clémence Poésy, a Fleur Delacour de Harry Potter) uma mulher com quem dormiu há um ano atrás e carrega uma bebê. Até aí, nada demais, mas o problema surge quando Samuel descobre que a tal bebê é Gloria, sua filha. Agora, tendo de cuidar de Gloria, ele aprenderá a ter responsabilidade, deverá servir de exemplo e blá blá blá.

O resto você já imagina, pois o roteiro escrito pelo próprio diretor Hugo Gélin em parceria com Mathieu Oullion e Jean-André Yerles, só se preocupa em utilizar clichês para preencher as lacunas da narrativa, o que não impede que alguns furos apareçam em alguns momentos.

Isso, em contrapartida, não chega a ser um problema grave, pois Omar Sy garante o sucesso da primeira metade da projeção, personificando com facilidade o típico adulto infantilizado e inconsequente. Sempre sorridente e com alguma frase positiva prestes a ser dita, Samuel é um homem que se recusa a assumir responsabilidades, acreditando que sua lábia é o bastante para solucionar eventuais problemas.

Aliás, de todo o elenco, apenas Poésy parece engessada no papel de Kristin, limitando sua composição a trejeitos tímidos e olhares de quem espera perdão, ao passo que a jovem Gloria Colston (que interpreta sua xará) permanece adorável durante a maior parte da narrativa, sendo atrapalhada pelo roteiro em alguns momentos, quando é obrigado a mudar de personalidade.

E por falar no roteiro, este é o verdadeiro Calcanhar de Aquiles da produção: demonstrando não conhecerem o conceito de sutileza, os roteiristas concebem a trama com pontos de virada, que surgem gratuitamente e de forma repentina, o que fica patente, por exemplo, na cena em que é revelada uma informação importante sobre Gloria de forma completamente descuidada, tirando o impacto que poderia causar e enfraquecendo o desenrolar da história, já que passamos a deduzir suas eventuais consequências.

E é curioso notar como essa tal revelação só parece importar de fato em momentos oportunos, já que na maior parte do tempo, tudo é solenemente ignorado, o que nos leva a outro tropeço do longa e que reside na fraca trilha sonora do irregular compositor estadunidense Rob Simonsen (Foxcatcher, A Incrível História de Adaline), que além de investir no óbvio, decepciona ao comentar todas as cenas, numa tentativa desonesta (e que comprova a falta de confiança no material) de provocar, na marra, determinados sentimentos no espectador.

Já a fotografia de Nicholas Massart, aproveita com relativa competência as belas locações francesas, embora ofereça uma composição mais conservadora.

Previsível a partir do segundo ato, Uma Família de Dois ainda se vê na obrigação de incluir uma “moral da história”, oferecendo uma frágil justificativa para seus acontecimentos finais, que mais parece ter saído de um livro de auto-ajuda.

O que é uma pena, já que constrói todo o seu primeiro ato com tanta energia, que fica difícil não contagiar-se com seus carismáticos protagonistas.

Desde que despontou em 2011 com o sensível Intocáveis, o ator francês Omar Sy rapidamente alcançou o topo em seu país de origem. De lá pra cá, alternou produções caseiras de grande sucesso (o bom Samba e o ótimo Chocolate, por exemplo) e participações em blockbusters hollywoodianos (o excelente X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido e o bacana Jurassic World). Entretanto, não importando a natureza da produção em que atua, o que Sy sempre carrega consigo (além de seu talento) é seu carisma, o que muitas vezes acaba mudando de patamar o filme que estrela. E é exatamente isso que…

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Uma Família de Dois

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Sobre Guilherme Khandido

Crítico de Cinema e Carioca. Apaixonado pela Sétima Arte, mas também aprecia uma boa música, faz maratona de séries, devora livros, e acompanha futebol. Meryl Streep e Arroz são paixões à parte...

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