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Falando sobre “Lucy”

Lucy-Manicômio-SériesEsse ano tivemos uma boa variedade de produções com o tema transcendência. Entre os filmes que vi, o regular Transcendence – A Revolução e o ótimo O Teorema Zero traziam esse debate aberto, quase como um fim para seus personagens e usavam a tecnologia como meio para que seus protagonistas humanos atingissem tal estado. Agora temos Lucy, escrito e dirigido por Luc Besson, que retoma o tema com outro olhar em uma ficção científica mergulhada em sequências de ação sem investir na tecnologia como fio condutor da trama, mas sim na capacidade cerebral humana, baseando-se na tese de que processamos apenas 10% do que poderíamos.

Lucy é uma garota boêmia dada ao uso de entorpecentes que em uma manhã qualquer é forçada a entregar uma maleta a um perigoso traficante chinês. A partir das complicações que a pequena missão apresenta, a garota vivida por Scarlett Johansson tem seu corpo infectado por uma substância e então passa a ter seu metabolismo acelerado, o que resulta em novas habilidades, sensações e, sim, a entropia que a faz precisar de níveis mais altos da mesma toxina para que o corpo não padeça antes de chegar a 100% da capacidade cerebral. Durante esse processo, a protagonista busca a ajuda de um importante acadêmico (Morgan Freeman) que escreveu uma tese sobre desenvolvimento cerebral, é perseguida pelo traficante chinês (Min-sik Choi) e conta ainda com a ajuda de um policial francês (Amr Waked) para conter alguns vilões.

Vamos primeiro aos méritos do filme. Besson consegue dar um bom ritmo e cria a urgência e a tensão necessária com constantes movimentos de câmera em vários momentos, especialmente quando decide antecipar acontecimentos com bons diálogos ou mesmo algumas reações dos atores. Note como Besson antecipa uma explosão ou a prisão de traficantes sem sequer investir nesse tipo de surpresa. Ou seja, na maior parte do tempo já sabemos o que vai acontecer durante o filme. Só não temos controle do que vem após inserções de 10%, 30% 50% e outras indicações da capacidade cerebral de Lucy. Assim, toda nossa atenção é presa no que pode acontecer com um humano naquele processo, e não em reviravoltas que já vemos em quaisquer filmes de ação.

O que me leva a outro ponto positivo: a montagem. Além das inserções que citei, Besson investe em rápidos planos com animais selvagens e outros que mostram o que a humanidade fez com a tecnologia. Com isso, fica a sugestão de que em nenhum desses dois polos (o instinto e a intervenção humana na natureza) seriam caminhos para a transcendência de Lucy, já que, segundo Besson, o caminho estaria em seu cérebro e apenas precisaria do estímulo externo correto – no caso, um composto químico que seria utilizado em doses inferiores como alucinógeno. Outro forte da montagem é uma sequência bastante inspirada na qual vemos as transformações do planeta em time-lapse dos dias de hoje até um passado infinito, o que me parece ser a mensagem principal do filme se observarmos bem o momento em que essa sequência é exibida.

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O diretor acerta ao criar as cenas onde personagens usam as drogas de modo a sugerir que vemos planos subjetivos quando na verdade, dentro daquele universo de ficção científica, subir teto e parede realmente parece acontecer, afinal a droga naquela quantidade aumenta a capacidade humana em níveis que desafiam a física como veremos na transformação da protagonista.

O que enfraquece o longa diante dos outros filmes que citei no início deste texto é que Lucy não traz perguntas, Lucy traz respostas. Respostas que ninguém pode afirmar. Se a transcendência de Transcendence sugeria um mundo melhor (e ainda assim Will de Depp seria visto como um vilão) e a de O Teorema Zero sugeria a busca pela felicidade do Qohen de Waltz com dilemas de um mundo cada vez mais conectado (e o humano cada vez mais isolado), aqui a Lucy de Johansson surge sem muitas dimensões, como se seu caminho transcendental simplesmente a afastasse da pouca humanidade que tinha. O único momento na construção da personagem que me pareceu interessante foi quando ela telefona a mãe para dizer sobre as transformações que sentia no corpo em contraponto com a tese do personagem de Morgan Freeman de que as células escolhem dois caminhos: a imortalidade ou a reprodução, dessa forma passando a informação para a geração seguinte. Logo, aquele momento em que Lucy liga para a mãe mostra uma ambiguidade humana, pois ela, ali, liga para uma geração anterior, já que nenhuma das duas opções sugeridas pelo professor pareciam ser possíveis.

Outro ponto negativo é que a atriz não está nos seus melhores dias. Quando passa a interpretar a transformação da protagonista, principalmente no segundo e terceiro atos, Lucy passa a perder expressões e Johansson se limita a meneios de cabeça e olhares fixos pouco convincentes. Não fosse o bom trabalho de figurino para mostrar essa transformação, o que inclui manchas de sangue enquanto ainda tinha humanidade e um vestido preto que formará uma rima visual com um dispositivo eletrônico, acredito que veríamos apenas uma versão mais irritada e descontrolada de Leeloo de O Quinto Elemento, também de Luc Besson. Freeman está em modo automático e sua primeira aparição em um simpósio onde apresenta sua tese soa como uma muleta narrativa banal, já que toda a base científica escolhida por Besson para sustentar sua ficção é apresentada por um acadêmico da mesma forma que apresentaríamos uma teoria qualquer em uma mesa de bar usando exemplos de golfinhos e outros animais pra tentar provar qualquer ponto de vista acerca do que não dominamos.

Mesmo com problemas, não chamaria Lucy de filme descartável, apenas penso que desperdice um bom trabalho técnico em uma produção que acredita responder o que seria de nós com controle de 100% do nosso cérebro. E nesse sentido, falha. De qualquer forma, sugiro que seja visto em sequência dos outros dois que citei para que possa refletir (e se divertir) com o tema comum que conduz as três narrativas. Mas lembre-se: não tente passar dos 10% da sua capacidade mental.

Esse ano tivemos uma boa variedade de produções com o tema transcendência. Entre os filmes que vi, o regular Transcendence – A Revolução e o ótimo O Teorema Zero traziam esse debate aberto, quase como um fim para seus personagens e usavam a tecnologia como meio para que seus protagonistas humanos atingissem tal estado. Agora temos Lucy, escrito e dirigido por Luc Besson, que retoma o tema com outro olhar em uma ficção científica mergulhada em sequências de ação sem investir na tecnologia como fio condutor da trama, mas sim na capacidade cerebral humana, baseando-se na tese de que processamos…

Review Overview

Direção
Roteiro
Cinematografia
Montagem
Direção de Arte

Bom

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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