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Falando sobre “Selma: Uma Luta Pela Igualdade”

Selma cartazNão é à toa que no ato final de Selma, durante o diálogo entre Martin Luther King Jr e um representante do governo, vemos em lados opostos da sala um quadro com um arco-íris e livros cujas cores envelhecidas da bandeira norte-americana remetem à Independência dos Estados Unidos. Isso quer dizer: enquanto Luther King Jr dialoga sobre as conquistas de seu movimento para os negros norte-americanos, vemos o passado de luta que resultou no fim do domínio britânico e o futuro movimento de igualdade de direitos que os homossexuais buscariam nas décadas seguintes. É um ciclo.

De tempos em tempos, conservadores que não aceitam a coexistência com pessoas livres de suas amarras históricas tendem a escolher aqueles que serão perseguidos, espancados, segregados e mortos sempre que possível. Dos piores casos recentes, nada supera a escravidão vivida pelos negros e o holocausto vivido pelos judeus. O que não diminui a gravidade das ações movidas contra mulheres que até outro dia sequer tinham direito a trabalhar e a participar da vida política. O mesmo vale para homossexuais, que recentemente travaram uma luta para que tivessem igualdade de direitos civis – e que está longe de terminar. Vale sempre lembrar que graças a movimentos liberais, negros, mulheres, estrangeiros, ateus, homossexuais, portadores de necessidades especiais e tantas outras minorias ganharam mais espaço, pois se dependesse de cabeças retrógradas, estariam cada vez mais à margem da sociedade dominante.

Imagine que você viva em uma sociedade onde a lei proíbe quaisquer manifestações contra sua liberdade, sejam elas contra seu aspecto físico, sua origem, seu credo ou sua sexualidade. Mas, ainda que leis garantam sua liberdade, camadas aparentemente infinitas de um aparelho burocrático impedem que você a exerça. Então você sofre. Como exemplo, não tem emprego formal – e quando tem, o salário garante, se garantir, as contas mínimas do mês. Sofre intimidação e não há a quem reclamar, afinal, a lei que diz que todos são iguais já está lá e o problema reside nos processos e nas pessoas. Parte daqueles que dominam a sociedade e ditam as leis dirá que você deveria estar feliz por não ser crime ser quem você é. Você deveria estar feliz por frequentar parques e por existir lugares pra você fazer refeições com a família e amigos. Essa turma ainda dirá: “daqui a pouco esses aí vão querer frequentar nossas escolas, nossas igrejas e mesmo eleger candidatos iguais a eles em nossa política”.

Esse é o retrato dos Estados Unidos da América durante o belíssimo filme da diretora Ava DuVernay, especialmente nos estados ao sul, que ainda resistem a mudanças promovidas pela Lei de Direitos Civis de 1964, assinada por Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). O excelente roteiro de Paul Webb acerta em tudo. Acerta no ritmo, na tensão, no clímax e, principalmente, acerta na construção do protagonista Martin Luther King Jr, vivido com soberba intensidade por David Oyelowo. Webb encontra espaço para desenvolver um lado menos conhecido de King: pouco tempo depois de receber o Nobel da Paz, o pastor e ativista vive um cansaço aparente, um desgaste com a esposa Coretta (Carmen Ejogo) que teme pela vida da família e divergências entre novas lideranças do movimento (excepcional trabalho dos jovens Trai Byers e Stephan James), coisas que dificultam cada vez mais a luta pacífica de Luther King Jr contra racistas intolerantes e violentos, em especial, o governador do Alabama George Wallace (Tim Roth).

Webb também acerta ao expor as feridas causadas por perdas de familiares ativistas que participam da arriscada estratégia de provocar os reacionários racistas em lugares onde são ainda menos pacientes (a estratégia consistia em arrancar reações explosivas das forças públicas e assim chamar a imprensa, ganhar visibilidade nacional e, consequentemente, a força para barganhar com o governo federal o direito inalienável de votar e ser votado assim como os cidadãos brancos).

Selma

DuVernay sabe como causar impacto. A diretora sabe como fazer o espectador sentir desprezo pela segregação sofrida pelos negros. Ela sabe expor o ódio do branco racista sem nenhum fundamento com sequências minuciosamente construídas para chegar ao objetivo.

Três momentos do filme exemplificam a força narrativa de DuVernay: o primeiro, logo no início do filme vemos um chocante atendado do ponto de vista da vítima. O segundo, a construção de um assassinato de um negro onde a diretora esconde todos os rostos brancos e fecha closes nos atores negros. Com isso ela consegue dizer em alto e bom som: o preconceito não tem face, não tem um culpado, somos todos culpados e não adianta culpar um ou outro, pois o preconceito parece prevalecer. Por outro lado, ao focar as expressões dos negros, ela diz: veja aqui no rosto dessa pessoa a dor causada pelo preconceito. Além da construção da cena, a decisão de mostrar o assassinato de um negro comum em vez de mostrar o assassinato de Malcolm X (Nigel Thatchacentua a segurança de Webb e DuVernay de conduzir a narrativa. Terceiro momento brilhante da diretora, com um simples movimento de câmera nas letras que formam o nome de uma ponte, podemos ver rastros deixados pela água ao passar pela ferrugem, o que imediatamente remete ao sangue derramado em Selma, especialmente naquela ponte de onde partiria a derradeira marcha que levou Presidente Johnson a defender o direito ao voto a todos os cidadãos sem discriminação.

A direção de arte reconstrói muito bem a década de 60 e faz um excelente trabalho na caracterização dos atores (Malcolm X está incrível). A fotografia ajuda na construção dos personagens, constantemente mergulhados em sombras, ou cores escuras e dessaturadas, que ajuda a separar ainda mais a distância entre eles e brancos, retratados em ambientes mais claros e com um figurino que contrasta com as roupas usadas pelos atores negros. Além disso, DuVernay opta por desfocar os ambientes de Luther King Jr, como se passasse a um plano quase subjetivo de um sujeito que precisará ouvir o próprio discurso para seguir motivado na causa.

Mesmo com todo o peso dramático, Selma diverte e inspira. Tem ótimos momentos de um povo que optou por ações pacíficas para conquistar seu espaço. Tem uma trilha sonora deliciosa que ajuda a aliviar a tensão, assim como aliviara aquelas pessoas durante tanto tempo. É um filme necessário hoje e sempre para que não nos esqueçamos do que somos capazes, pois sabemos que preconceitos voltam com novas vítimas e novos estandartes. E tem Oprah Winfrey, cuja presença simboliza muito do que deu certo após tantos dias de luta. Afinal, ela jamais chegaria onde chegou se não fossem por aqueles que enfrentaram o preconceito de frente.

Como deve ser.

(PS: Selma seria meu voto no Oscar…)

(PS 2: … mas aí vi Birdman e Whiplash!)

Não é à toa que no ato final de Selma, durante o diálogo entre Martin Luther King Jr e um representante do governo, vemos em lados opostos da sala um quadro com um arco-íris e livros cujas cores envelhecidas da bandeira norte-americana remetem à Independência dos Estados Unidos. Isso quer dizer: enquanto Luther King Jr dialoga sobre as conquistas de seu movimento para os negros norte-americanos, vemos o passado de luta que resultou no fim do domínio britânico e o futuro movimento de igualdade de direitos que os homossexuais buscariam nas décadas seguintes. É um ciclo. De tempos em tempos, conservadores que não aceitam a…

Avaliação Geral

Direção
Roteiro
Cinematografia
Elenco
Trilha Sonora

Imperdível

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Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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