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Indicados a Melhor Filme e outros pitacos na 87ª Edição do Oscar


oscar white 2Todo cinéfilo fica de olho no Oscar. Podemos sim discutir se a premiação é justa, se é apenas uma festa com poucos convidados, se a arte fica em segundo plano, se outras premiações são mais corretas do ponto de vista técnico e todo o blablablá que volta todos os anos quando amantes do cinema começam a falar da premiação da Academia.

Fato é que, gostemos ou não, a grande maioria de cinéfilos ficará ligada e falará sobre os resultados durante a semana seguinte. Outro fato é que o Oscar é uma premiação tradicional, divertida e que serve no mínimo para reunir grandes produções do Hollywood e algumas outras feitas pelo mundo para que o público tenha uma referência de melhores filmes, diretores, roteiristas, atores, atrizes, compositores e, claro, toda a equipe por trás das indicações aos prêmios técnicos, animações, curtas e documentários pra quem curte essas produções.

Não vou arriscar palpites, afinal, Oscar é quase uma loteria com aquela votação complexa. Abaixo falarei de cada um dos indicados a Melhor Filme na minha ordem de preferência caso fosse membro da Academia e direito a voto. Eventualmente apontarei nesses parágrafos quais seriam minhas escolhas para outras categorias caso o filme também concorra, mas me resumirei a isso. Você poderá conferir a crítica completa caso tenha sido publicada, nem todos vi a tempo de escrever aqui.

Vamos lá:

1) Birdman – Ou a Inesperada Virtude da Ignorância

birdmanÉ meu filme preferido entre os oito indicados. Iñárritu planejou o longa como se fosse uma única sequência na maior parte do tempo de tela, recurso que é um dos pontos fortes do filme e que o faz diferente dos demais. É uma obra prima. Além de competente do ponto de vista técnico, Birdman é ácido o bastante para criticar a indústria cinematográfica e tudo o que a cerca. Com um roteiro cheio de diálogos muito inteligentes, Iñárritu mistura realidade e ficção (e ficção dentro da história) no texto e dá aos atores a oportunidade de desenvolverem os personagens com um grau de dificuldade peculiar. Tem uma cinematografia impressionante e sem o trabalho excelente de Lubezki que levou o Oscar ano passado, certamente esse filme não seria tão sensacional. Meus votos de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original iriam para Iñárritu e Melhor Cinematografia para Lubezki. Crítica completa aqui.

2) Whiplash

whiplashUau! Que filme maravilhoso! Escrito e dirigido de forma extraordinária por Damien Chazelle, Whiplash narra história do estudante de música Andrew, muito bem interpretado por Milles Teller, que tem a oportunidade de entrar em uma banda de jazz dirigida pelo autoritário Fletcher. Chazelle investe em muitos, repito, MUITOS planos fechados e planos detalhes para contar a evolução do jovem e exímio baterista. Conta com um trabalho de montagem maravilhoso de Tom Cross que sincroniza os cortes ao andamento do jazz, ressaltando cada instrumento da banda e aproveitando ao máximo os planos detalhe do diretor, especialmente nos planos da bateria e nas expressões de Andrew e Fletcher. O plano final é algo memorável, uma sequência que deve ser revista muitas vezes. E JK Simmons… bem… ele deveria levar o Oscar todo ano daqui pra frente só por causa da sua atuação como Fletcher. Simmons seria meu voto para Melhor Ator Coadjuvante, Cross seria meu voto para Melhor Montagem e é ainda meu preferido para Melhor Mixagem e Melhor Roteiro Adaptado.

3) Selma

SelmaFilme muito especial de Ava DuVernay. A diretora merecia ao menos uma indicação, mas ficou de fora. O filme conta o um período da vida de Martin Luther King Jr quando ele já era o grande símbolo da luta pela igualdade de direitos dos negros. O grande acerto da diretora e do roteiro de Paul Webb é transformar o mito Luther King em um personagem mais complexo, um ser humano cheio de conflitos com a própria causa. Excelente atuação de todo elenco, trilha sonora maravilhosa e uma fotografia muito bonita. Daria meu voto de Melhor Canção Original, mas confesso ficar dividido entre Glory e Lost Stars de Mesmo Se Nada Der Certo. Crítica completa aqui.

4) O Grande Hotel Budapeste

grande hotel budapesteÉ o filme mais divertido entre os indicados. Todo o elenco parece se divertir o tempo inteiro. Destaque para as atuações de Ralph Fiennes, Willem Dafoe e Edward Norton. Tem uma interessante fotografia surreal e um design de produção impecável. Seria meu voto para Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Maquiagem.

5) A Teoria de Tudo

teoria de tudoApesar do roteiro escorregadio de Anthony McCarten que ignora a ciência em um filme sobre Stephen Hawking e ainda usa os filhos do protagonista como recursos baratos e esparsos durante a narrativa (de repente, os filhos somem do filme e ressurgem para uma conveniência tola no desfecho), Eddie Redmayne carrega o filme nas costas com uma memorável interpretação. Com o desenvolvimento da doença que limitou todos os movimentos voluntários (o que garante alívios cômicos inspirados no senso de humor peculiar do físico na vida real, especialmente sobre sua vida sexual), Redmayne faz uma composição precisa de seu personagem. Se apenas os movimentos involuntários de Hawking podem ser usados pelo ator, perceba que cada sorriso ou expressão mais tensa precisa soar autentica. Hawking jamais pode forçar ou conter um sorriso, e aqui reside o trabalho primoroso de Redwayne. E ele é meu preferido ao prêmio de Melhor Ator.

6) Boyhood

boyhoodDoze anos de trabalho, um projeto ambicioso e realizado com todos os méritos que pudermos dar a Linklater. O diretor e roteirista consegue superar todos os desafios de lidar com o tempo de produção, afinal, precisou sim ter a equipe comprometida por tanto tempo. A montagem é um ponto forte, assim como a atuação de Ethan Hawke. A atuação da filha do diretor incomoda, assim como algumas sequências que destoam do projeto, como uma envolvendo um gerente de restaurante e outras prejudicadas pela atuação fraca da filha do diretor. É um retrato de época que tem ecos na própria formação profissional do protagonista Mason, o que é bastante interessante. Linklater, porém, não contém sua própria voz ao incluir uma cena em que um professor diz a Mason que ele precisa fazer algo diferente dentro da fotografia para se destacar e isso acaba soando como um grito rebelde do próprio diretor, afinal é isso que ele está fazendo com Boyhood. É um ótimo filme, não há como negar, mas longe ser premiado em qualquer categoria na qual foi indicado.

7) O Jogo da Imitação

jogo da imitaçãoCumberbatch entrega um trabalho incrível, minucioso, com muitos detalhes na sua postura e expressão facial que protegem um personagem tão genial quanto frágil devido ao segredo que é obrigado a esconder. Com muito mais acertos que se sobrepõem aos problemas de estrutura (e Cumberbatch é o principal responsável por isso), O Jogo da Imitação está entre os grandes filmes do ano, fala sobre um matemático importante para história e ainda encontra a medida certa para abrir a discussão sobre as atrocidades contra gênero e sexualidade. Mas também não teria meu voto em nenhuma categoria. Crítica completa aqui.

8) Sniper Americano

sniper americanoQuase uma ode ao militarismo norte-americano, aquele que rompe o princípio de não intervenção aos povos adotado pelos países ditos civilizados. Com um roteiro desonesto que chega a usar o 11/9 como motivação para o psicopata Chris Kyle matar mais de uma centena de pessoas no Iraque, e isso inclui crianças, mulheres e qualquer “selvagem” (como o protagonista mesmo diz) que ameace a integridade dos fuzileiros navais invasores. Longe de ser a melhor coisa que Eastwood já fez, Sniper Americano tentar transformar um assassino em vítima. É um filme moralmente desprezível que aqui e ali apresenta bons momentos para um filme de guerra. Bradley Cooper está indicado a Melhor Ator no lugar de Jake Gyllenhaal por seu papel em Abutre e ocupou o lugar de Garota Exemplar na lista de indicados a Melhor Roteiro Adaptado. Seria minha escolha em Edição de Som.

Das categorias principais que falta opinar, Rosamund Pike seria meu voto pelo seu ótimo papel em Garota Exemplar e Laura Dern seria meu voto para Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu papel em Livre. Nas demais categorias, não vou dizer em quem votaria, pois não vi todos os indicados. Fico só com uma singela torcida pelo hermano Relatos Selvagens, que é realmente espetacular.

Boa premiação a todos!

Sobre José Rodrigo Baldin

Escritor e Crítico Cinematográfico, membro da Associação Paulista de Críticos de Arte e da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

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